DVD: Holocausto Canibal
Início ] Acima ] DVD: Deep Blue Sea ] [ DVD: Holocausto Canibal ] DVD - O Nevoeiro (The Fog) ] DVD: The Thing ] DVD: Zombie Flesh Eaters ] Livro: Hearts in Atlantis ] Livro: Bag Of Bones ] Livro: Estações Diferentes ] Livro: Insónia ] Livro: Metade Sombria ] Livro: Rose Madder ] CD-ROM: SK's F13 ] RPG: Puppetland ] RPG: Unknown Armies ] Conselhos de Escrita ] Todo O Horror ] Horror Pessoal ] Bio: Stephen King ] O Rei Stephen King ] Stephen 'Bachman' King ] Richard Laymon ] Bentley Little ]

 

Holocausto Cannibal
(Cannibal Holocaust)
por
Peter Lynch

(Tradução e Adaptação de Ricardo Madeira)

 

LINGUAGEM
Inglês
1.85:1

COR
95 min.
EC
Entertainment
Estéreo
LEGENDAS

  Inglês, Holandês

Holocausto Canibal, em DVD!

 

Da EC Entertainment, a mesma companhia que lançou o trio de Lucio Fulci L'Aldila…, Paura Nella Citta Dei Morti Viventi e Quella Villa Accanto Al Cimitero em DVD Região 2, chega-nos o inigualável HOLOCAUSTO CANIBAL (Itália, 1979), de Ruggero Deodato, numa edição não-cortada em formato widescreen letterbox semelhante ao LaserDisc da Cult Epics. Depois do sucesso (apesar da qualidade medonha) do seu Ultimo Mondo Cannibale / The Last Cannibal World, bem como de outras representações lucrativas de violência visceral e inconscientemente brutal de Fulci (como Zombi 2 e La Regina Dei Cannibali), Deodato realmente aumenta a parada com uma das obras de cinema mais inesquecíveis, mais brutais e mais brilhantes já concebidas.

Em Nova Iorque circulam notícias do misterioso desaparecimento de quatro (três homens e uma mulher) jovens autores de documentários algures nas selvas indomadas da bacia amazônica. Uma missão de salvamento é preparada, e não demora muito até que, à medida que a equipa de salvamento penetra mais e mais fundo no inferno verde que é a Amazónia, comecem a acumular-se evidências da viagem criminosa dos quatro cineastas pelo território das tribos nativas, progressivamente mais selvagens, da área. Como um dos intérpretes opina ao professor que conduz a expedição: "Algo me diz que os seus amigos fizeram uma enorme bagunça de tudo isto". Eventualmente, após forjar uma aliança com uma de duas tribos canibais em guerra, a equipa de salvamento descobre a sorte dos quatro jovens... sob a forma de restos de esqueletos erguidos na forma de um horrível totem, completo com latas de filme por abrir e câmaras.

Sendo-lhe pedido que estude os rolos de filme por uma rede de televisão desejosa de os emitir sob o título de O Inferno Verde, o professor que conduziu a equipa descobre algo mais sobre os métodos usados pelos jovens através de um dos seus documentários anteriores: A Última Estrada para o Inferno, um "docudrama" grotesco no qual pessoas de todas as idades são assassinadas indiscriminadamente por soldados de uma ditadura do terceiro mundo, e que culmina numa execução em massa por pelotões de fuzilamento. Quando contam ao professor que o documentário é falso e que os soldados foram "pagos para representar um pouco", o professor não fica contente. Pedaços de entrevistas com amigos e parentes dos quatro cineastas falecidos revelam ainda uma indiferença generalizada quanto ao seu destino.

Quando o académico, cada vez mais perturbado, se senta para assistir a uma rude montagem dos rolos de filme descobertos pela expedição, alcançamos o coração da obra de Deodato.

Iniciando-se com uma introdução jocosa às pessoas dos cineastas e com a sua viagem para a selva, a descoberta de que eles são irreverentes, falsos e filmam com duas câmaras logo nos conduz a aventuras bastante mais sinistras, à medida que os homens e o guia puxam uma tartaruga do rio e a desmembram viva, descolando-a da carapaça e arrancando-lhe as entranhas enquanto a um metro de distância a cabeça continua a grasnar de infelicidade. As coisas vão de mal a pior: aranhas e cobras fazem entradas pouco bem-vindas, e o guia é morto tanto pela inépcia apressada dos cineastas como pela picada de cobra que sofreu. Finalmente, os quatro chegam a uma clareira e dão de caras com uma aldeia. Aqui vêm ao de cima as suas verdadeiras personalidades: matam um porquinho que estava a ser criado como comida, encurralam os aldeões numa cabana e pegam-lhe fogo enquanto filmam as suas próprias atrocidades para o documentário. Dois dos protagonistas chegam mesmo a ter relações sexuais como resultado da excitação trazida pelo derramamento de sangue.

Menos feliz do que nunca, o professor tenta convencer a estação de televisão a esquecer as filmagens dos quatro amigos, apenas para lhe ser dito que "as pessoas querem sensacionalismo, quanto mais você lhes viola os sentidos mais felizes elas são". Desta maneira, o nosso espectador erudito, enfadado e não muito convencido, respira fundo - metaforicamente falando - e senta-se para assistir ao acto final. É então que, parafraseando a expressão inglesa, a caca de morcego realmente atinge o ar condicionado.

Os quatro cineastas capturam e violam à vez (bom, pelo menos os homens) uma rapariga nativa, que é depois filmada empalada, ao estilo de Vlad, num poste que lhe entra por entre as pernas e lhe sai pela boca. Isto, comentam eles, não é bom... e fica pior: os quatro são subrepticiamente cercados pelos nativos enfurecidos, e mortos, as suas entranhas arrancadas e gananciosamente devoradas em frente à máquina de filmar pelos figurantes, que sorriem selvaticamente.

Abrindo com a música assombrante de Riz Ortolani e bonitas vistas panorâmicas da bacia amazônica, apresentado com a legenda "Em nome da autenticidade, algumas sequências foram mantidas na sua totalidade", o filme de Deodato é, talvez, a derradeira exploração do Homem como animal e dos extremos a que pode chegar a capacidade inerente do Homem para crueldade. Como um exame da desumanidade do Homem para com o Homem, o filme é absolutamente severo com a sua conclusão austera e deprimente, que nos deixa esgotados, habilmente utilizando um velho truque literário clássico; enquanto nos antigos romances pornográficos nos é dito frequentemente que eles são derivados de "manuscritos recentemente descobertos", a parte crucial do filme de Deodato são as "filmagens descobertas", cheias de arranhões, grão, marcas de laboratórios fotográficos, zooms amadores, recordando as filmagens "snuff" vagamente semelhantes em Emanuelle In America. Esta filmagem em estilo Cinema Verité (uma ideia depois reaproveitada no impressionante Blair Witch Project) envolve-nos totalmente, e HOLOCAUSTO CANIBAL é, de longe, o mais interessante, inteligente e poderoso dos filmes italianos de canibais, que são normalmente tipificados por obras ruins e ineptas como Eaten Alive / Mangiati Vivi de Lenzi, ou o vulgar Apocalisse Domani / Cannibal Apocalypse de Margheriti.

Raramente exibido na sua totalidade, esta longa-metragem que era (ao contrário da maioria das suas obras contemporâneas) uma cause celébre, apresenta-nos um catálogo de crueldade inflingido sobre todas as pequenas criaturas de Deus, tanto no homem como no animal. Uma mulher grávida é apedrejada e o seu feto arrancado do útero, uma mulher é empalada, uma tartaruga eviscerada, um pequeno mamífero esfolado vivo, há violações e assassínios, e ainda imolações e torturas; o cenário aliado a um realismo evidente, próximo o bastante do subgénero cinematográfico do Mondo para que haja um certo borrar das fronteiras, confere-lhe um tom desolador, e a mistura de atrocidades autênticas e aparentementes autênticas é de nos deixar de queixo caído.

O filme é representado de forma convincente, tremendamente bem escrito, brilhantemente dirigido e é, sem dúvida, um dos melhores filmes da sua década. Um clássico absoluto.

 

Avaliação do DVD (de 1 a 5)

 

Imagem:   

Capa da Edição VHS na GréciaDada sua idade, o filme usado para criar esta cópia é, como seria de esperar, menos do que perfeito, e é um tanto desigual aqui e ali. No entanto, comparado com algumas das encarnações anteriores deste filme, este DVD é uma grande melhoria. Por outro lado, não é nem melhor nem pior do que a versão em LaserDisc.

Muitos dos mesmos prós e contas que são evidentes nas edições das obras de Fulci pela EC Entertainment também são evidentes aqui. Novamente, como a caixa nos informa, este DVD foi "remasterizado" digitalmente a partir dos negativos de 35mm originais, e isso nota-se bem. A violência gráfica está toda lá, e foram sem dúvida usados os melhores negativos disponíveis. Possuo a edição italiana original em cassete VHS, e ela não fica nem perto da qualidade deste DVD. O formato widescreen aqui é 1.85:1. Não é anamórfico mas é bastante impressionante, com uma coloração precisa, tons de negro agradáveis e tons de pele razoáveis.

 

 Som:   

Com um filme com 20 anos de idade, o som nunca vai ser muito mais do que funcional. A banda sonora de Riz Ortolani, bonita e assombrante, está razoavelmente bem apresentada - servindo como um contraponto extremamente eficaz às imagens desoladoras que nos são mostradas - e continua até hoje a ser um dos maiores atractivos do filme. Como parece que é sempre o caso nas edições da EC, a única opção em termos de som é a trilha sonora em mono original; claramente eles não remasterizaram o áudio como o fizeram com o visual. O som não é tão desapontador como o dos DVDs de Fulci e, às vezes, possui uma claridade bastante notável, mas a falta de som estéreo é uma grande perda dadas as propriedades gloriosamente hipnóticas, melodiosas e épicas das composições de Riz Ortolani. Possuo a banda sonora em CD, e ela é realmente impressionante; poderia aqui ter soado muito melhor com um pouco mais de esforço.

 

Extras:   

Capa da Edição VHS no Reino UnidoTrailers são sempre bem-vindos, e o trailer principal é em grande parte o mesmo trailer excelente que me lembro de ver há tantos anos atrás, bem apresentado e um dos melhores trailers que já encontrei para um filme de horror italiano, com imagens duras, uso eficaz da música de Ortolani... no entanto, o que aconteceu aos evocativos comentários em voz-off? Em vez deles temos cartões-títulos idiotas inseridos ao acaso. Que ideia desajeitada! O outro trailer é uma vulgar apresentação alemã do filme de Deodato, com o seu uso gratuito de luzes intermitentes que era melhor se fosse evitado por epilépticos. Os habituais trailers da EC, apresentações para o giallo de Lamberto Bava La Casa Con La Scala Nel Buio / A Blade In The Dark e o tolo filme canibal de Sergio Matino Mountain Of The Cannibal God / La Montagna Del Dio Cannibale (intitulado Slave Of The Cannibal God no ecrã), estão conspicuamente ausentes aqui. Não eram lá muito bons mas, tal como um amigo irritante, são recordados com saudade na sua ausência.

A entrevista, de facto uma mistura de duas entrevistas separadas feitas no festival Eurofest pelo filho de Deodato, Savero, e pelo jornalista Martin Coxhead, é razoavelmente interessante. Alguns factos fascinantes são mencionados, inclusivé a alegação de que o filme custou 100 000 dólares a fazer e rendeu muitos milhões em todo o mundo. Isso é que é lucro a sério! Também se revela que as sequências da selva foram rodadas em cinco semanas usando um gerador de 10 KW! Além disto, Deodato revela-nos o seu realizador favorito e oferece-nos alguns pensamentos seus em relação ao seus conterrâneos Argento e Fulci. A qualidade fica bastante acima da das entrevistas nos DVDs de Fulci editados pela EC, e torna-se claro que este material foi filmado por profissionais.

A galeria de fotos é realmente muito boa, tendo em conta as limitações deste tipo de coisas, mostrando uma combinação interessante de cartões promocionais, cartazes e capas de videos/discos do filme um pouco por todo o mundo (inclusivé a capa da edição VHS Portuguesa!). Um dos melhores exemplos do género.

O folheto desdobrável é bonito, mas nada especial: uma filmografia/biografia incompleta e algumas imagens do filme. O disco é muito agradável de se olhar, no entanto, com ilustrações de capa impressionantes.

 

Avaliação Final:   

Conclusões semelhantes às tiradas para as edições da EC Entertainment do trio de filmes zombie de Fulci aplicam-se aqui, com uma excepção fundamental. Os de Fulci eram discos "que se devia ter", DVDs que valia a pena comprar apesar da apresentação ligeiramente falhada. Este filme é algo inteiramente diferente, sem dúvida um DVD "que se tem que ter".

A imagem é muito boa, o som é adequado e os extras são razoáveis, embora seja verdade que estes, no seu conjunto, não sejam nada de especial. Este é um disco essencial em qualquer coleção, o filme principal de Deodato e um bona-fide clássico.
Durante muitos anos foi esta obra maltratada nos formatos de home entertainment, censurada, no formato incorrecto, ou pálida e deslavada, às vezes apresentada em cópias de n geração que realmente não valia pena a ver.

Agora a edição limitada widescreen da EC Entertainment corrige todos esses maus tratos, numa apresentação sem cortes ou censura que há muito o filme merecia. Gostava que viesse incluído um comentário completo ao filme pelo realizador, Deodato, mas fora isso dou-lhe a nota máxima.

 

A.K.A. (Também Conhecido Por):

HOLOCAUSTO CANNIBALE; HOLOCAUSTO CANNIBAL; JUNGLE HOLOCAUST; NACKT UND ZERFLEISCHT.

 

Versões Alternativas: 

A edição original no Reino Unido, da editoral "Go Video", estava fortemente cortada, o que não evitou que o título fosse rapidamente vítima da caça às bruxas "Video Nasty". A BBFC (British Board of Film Classification) disse subrepticiamente a um distribuidor (que terá de permanecer anónimo) para "não se chatear apresentando isto à BBFC" de modo a "não desperdiçar o seu dinheiro".

Ao redor do mundo, muitas partes do filme desapareceram debaixo da faca dos censores, em tempos e lugares diferentes. Várias edições cortadas circulam em vários territórios. Foi editado em Portugal pela mão da Roma Lusa.

 

Curiosidades: 

Deodato foi, a certa altura, o assistente de Roberto Rosselini.

HOLOCAUSTO CANIBAL tem uma história controversa.

bullet

Em Março de 1980, quatro semanas após a sua estreia, o filme foi judicialmente perseguido na Itália por causa de uma lei pouco conhecida que dizia respeito à tortura de animais. Foi confiscado, declarado obsceno e foi oficialmente banida a sua exibição no país até 1983, quando Deodato ganhou no tribunal um recurso e o filme, na sua totalidade, re-estreou.

bullet

Em Janeiro de 1981 uma revista francesa usou um artigo intitulado Guignol Cannibale para apresentar o filme como um "snuff film" (filmes supostamente reais que mostram pessoas a serem mortas, mas que não passam de mais um mito urbano, felizmente), e estas alegações resurgiram posteriormente, depois do Serviço de Alfândegas de Sua Majestade ter confiscado o filme no Reino Unido, em 1983.

A Edição Portuguesa de HOLOCAUSTO CANIBAL, em VHS

Splatterhouse - The Home of Horror on DVD

Peter Lynch é um dos principais colaboradores regulares do fabuloso site Splatterhouse. O Turno agradece-lhe a sua permissão para reproduzir neste site os seus artigos.

Texto: Copyright © 2000 Peter Lynch

 

Última actualização: 17-09-2001

Início ] Entre no TURNO ] Concurso Literário ] Competição do Turno ] Equipa do Turno ] Links Favoritos ] Contacte o Turno ]

Viva o Terror na sua TV!
  


Para saber a data de exibição, passe com o ponteiro do rato sobre o título do filme.
Para saber mais sobre cada filme, simplesmente clique no título.

Copyright © 2001 Ricardo Madeira