1-Fev-2001
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O Canto do Tó é uma coluna que se pretende regular, um espaço onde o venerável António Pascoalinho nos fala de tudo o que lhe vem à cabeça. Sendo ele um grande apreciador e conhecedor do cinema de terror, com certeza que os visitantes do Turno se sentirão (des?)confortáveis aqui... Desta vez o grande mestre Tó regressa com um belíssimo ensaio sobre o cinema de terror italiano, em particular sobre o giallo (significa «amarelo», a cor do medo). Os realizadores na berlinda são Mario Bava, Dario Argento, Lucio Fulci, Michele Soavi e Lamberto Bava.

 

Bava! O Gore Italiano: Fulci!
Argento! de Bava a Bava Soavi!

Tenebre (1982), de Dario ArgentoConsiderado desde há alguns anos como género menor dentro da arte cinematográfica e reservado exclusivamente a pervertidos amantes do sangue e das mortes violentas, o gore (ou giallo para os italianos) é um tipo de Cinema pouco divulgado pela distribuição no nosso país, embora algumas (poucas) edições em video o tenham aproximado um pouco mais do público nos últimos tempos.

Falo daqueles filmes virados para a morte como espectáculo, em que a faca penetra nos músculos do pescoço, a bala destrói "en passant" as cartilagens do tórax e o sangue jorra abundantemente sobre os espectadores da primeira fila. Filmes esses nos quais o Cinema Fantástico Italiano ganha papel de destaque. Consta ter sido I Vampiri, de Riccardo Freda em 1957, o primeiro filme fantástico Italiano. Mas foi o ex-director de fotografia Mario Bava quem definitivamente pegou no género e explorou exaustivamente o filão, a ponto de o elevar ao estatuto de obra de autor. E por isso se pode considerar Bava como fundador e mentor das "goelas cortadas", o responsável pela teoria de que a morte deve ser mostrada (por mais violenta que seja) e não apenas contada ou referida; dele nasceram excessos visuais como A Máscara do DemónioA Máscara do Demónio (1960), de Mario Bava ou Baía Sangrenta, inaugurando um conjunto de filmes excessivos e delirantes, que grangearam junto do público numerosos adeptos. Discípulos directos do mestre são realizadores como Dario Argento, Lucio Fulci, Michele Soavi ou o seu filho Lamberto Bava: a carne nos seus filmes é arrancada à dentada tornando zombies, estripadores e afins cada vez mais ameaçadores. Os técnicos de maquilhagem e efeitos especiais ganham um papel preponderante. A ameaça aproxima-se e o terror é mais real.

Os primeiros filmes de terror realizados em Itália versavam temas como o vampirismo, a licantropia ou as casas assombradas: intrigas clássicas, mais ou menos decalcadas dos filmes de Terence Fisher e Freddie Francis na Inglaterra, ou de Roger Corman nos States. A violência visual não era ainda explícita, como aquela a que estamos habituados nos dias de hoje. Na década de 60, surge o filão dos filmes de espionagem e aventura à la 007, de onde Devilmann Story é o melhor exemplo. Até que, em 1969, surge um jovem desconhecido de nome Dario Argento com o seu filme O Pássaro com Plumas de Cristal, verdadeiro percursor do thriller à italiana, que deu início a um percurso de afirmação do género e que só viria a terminar com a explosão das possessões demoníacas, ocorrida em 1974 fruto do enorme sucesso mundial de O Exorcista, de William Friedkin. Muitos decidiram seguir o modelo, como muitos outros pegaram no modelo zombie, após o fulgurante A Noite dos Mortos-Vivos, de George Romero em 1979. Mas o importante é que o Fantástico de Horror estava definitivamente afirmado na cinematografia Italiana. E não mais pararia até aos nossos dias..

FILMOGRAFIA SELECTIVA


MARIO BAVA (1914-1980)

Lisa and the Devil (1972)Mario Bava (1914-1980)Da obra de Mario Bava sobressaem os primeiros grandes sucessos do horror Italiano: A Máscara do Demónio (1960), uma história de feitiçaria e reencarnação que confirmou na ribalta os dotes da então rainha do terror: Barbara Steele. Ficou célebre a sequência inicial com a máscara pregada literalmente no rosto da feiticeira indefesa; Cinque Bambole per la Luna d'Agosto (1970), um semi whodunit em que um grupo de convidados para uma festa numa ilha acaba por ficar sozinho e indefeso, enquanto os seus membros são chacinados um a um: com um cheirinho aos Ten Little Niggers de Agatha Christie; esse fabuloso Baía Sangrenta (1971), verdadeiro percursor da saga Sexta-Feira 13, onde um assassino psicopata (e mesmo mais que um), vai eliminando por ganância os membros de uma família com as armas que consegue arranjar, da forma mais violenta possível. A câmara acompanha os crimes, e nem falta a sequência do casal de amantes que é trespassado por uma lança em pleno acto sexual, como viria a ser moda no primeiro Sexta-Feira 13, de Sean S. Cunningham, quase 10 anos depois; ou Lisa and the Devil (1972), uma incursão pelos meandros do filme de demónios, com a turista Elke Sommer atormentada pelos fantasmas da sua própria morte às mãos do perverso carrasco Telly Savalas.


DARIO ARGENTO (1943- )

Dario ArgentoSuspiria (1977)Do grande mestre do ghiaccio, quase tudo é bom. Mas alguns títulos merecem especial atenção: O Mistério da Casa Assombrada (1975), um dos primeiros filmes a explorar as potencialidades do gore até às últimas consequências: facadas que penetram a pele, estilhaços de vidro como arma perfurante e a fabulosa morte final no elevador são disso um óptimo exemplo; Suspiria (1977) e Inferno (1980), dois items da prometida trilogia sobre as Três Mães, da qual o opus 3 permanece por realizar: Mater Suspiriorum, a Mãe dos Suspiros, é uma bruxa com enormes poderes que habita as catacumbas de uma Academia de Dança na Suíça. E o horror vai despontar, quando uma aluna recém-chegada começa a investigar mais do que devia (Suspiria). Mater Tenebrarum, a Mãe das Trevas, vive num bloco de apartamentos em Nova Iorque. E não vai descansar enquanto não eliminar cada um dos restantes inquilinos (Inferno). São duas obras fortíssimas na filmografia de Argento, de um horror explícito, animado por sons de rock e repleto das cores dominantes na paleta do seu realizador: vermelho vivo e dourado. Sobre Mater Lacrimarum, a Mãe das Lágrimas, ainda nada se sabe. Mas Argento promete regressar ao tema. Terror na Ópera (1987) é talvez a obra mais perfeita do seu autor: demência, vingança, muito sangue e uma violência visual de encenação barroca: a cantora amarrada com alfinetes nos olhos, de modo a que não os possa fechar enquanto assiste ao assassínio do namorado; ou a sequência da bala que atravessa um crâneo e termina no telefone que a heroína usava para pedir auxílio, são imagens dignas de uma antologia do horror. E onde Dario Argento já tem, forçosamente, lugar de merecido destaque.


LUCIO FULCI (1927-1996)

Lucio Fulci (1927-1996)Zombie, lançado na Europa como Zombi 2Do grande Fulci, muito haveria a dizer. Já filmou quase todos os géneros de terror, ficção científica e até mesmo comédias. Mas as suas obras mais emblemáticas são, sem dúvida, o enigmático Zombi 2 (1979), o filme de mortos-vivos que mais se aproxima do livro de Peter Tremayne, com a célebre sequência da invasão de Nova Iorque por um enorme bando de zombies que atravessa a ponte de Manhattan, e a não menos célebre imagem da jovem que é assassinada no duche por uma farpa de madeira que lhe atravessa literalmente uma das vistas. O Estripador de Nova Iorque (1982), uma versão de Jack the Ripper à base de esquartejamentos com lâminas de barbear. E a célebre trilogia dos infernos, composta por Os Mistérios da Cidade Maldita (1980), As 7 Portas do Inferno (1981) e A Casa do Cemitério (1981): três obras de cariz mais ou menos exploratório, em que cientistas ou pseudo-detectives tentam encontrar explicação para alguns fenómenos do oculto e acabam sempre enredados em teias do maior horror: demónios, zombies, adoradores de Satã e outros quejandos, num manancial de sangue a rodos e goelas cortadas que parece não ter fim. Lucio Fulci lançou um modelo de filmes de terror. E vasto é já o número dos seus seguidores.


MICHELE SOAVI (1957- )

Michele SoaviDellamorte Dellamore (1993), em DVDSobre o mais notável discípulo da escola Dario Argento (e cuja obra foi divulgada em Portugal pelo Fantas), já quase tudo foi escrito ou mostrado. Desde esse notável huis-clos num teatro fechado onde um assassino psicopata dá largas aos seus instintos homicidas, que dá pelo nome da A Noite do Medo (1987), ao portentoso exercício de estilo que é Dellamorte Dellamore (1993), com as desventuras de um guarda de cemitérios cuja missão é reenviar para o túmulo zombies teimosos e que acaba por se apaixonar por uma das mortas revitalizadas. Entre estes dois filmes, Soavi rodou A Catedral (1989), mais uma versão do terror em casas fechadas, que esteve para se chamar Demoni 3 e enche de sangue e vísceras os claustros de uma catedral gótica; e a mais desconhecida das suas obras, La Setta (1991), uma viagem pelos adoradores do Além, com muitos sacrifícios rituais, torturas e imolações. Michele Soavi é já um autor de horror. Apenas pouco prolífico. Aguardo ansiosamente o seu próprio trabalho, uma nova versão de A Múmia, prometido há mais de dois anos e a ser realizado já em Hollywood.


LAMBERTO BAVA (1944- )

Demoni (1985)Lamberto BavaFilho do mestre Mario, como atrás referi, Lamberto conta já no seu curriculum com um manancial de horrores cinematográficos bem dignos da herança que ostenta. Assistente de realização em várias obras de seu pai, e depois de duas obras menores, emerge em 1985 com o excelente Demoni, uma obra inteiramente rodada numa sala de cinema, onde o filme que está a ser projectado vai ser responsável (com a ajuda de uma máscara demoníaca), pela morte ou "zombificação" de todos os espectadores presentes na sala. No ano seguinte, Lamberto repete a dose com Demoni 2: L'Incubo Ritorna, numa receita similar, mas agora num bloco de apartamentos com altos sistemas de segurança para impedir as vítimas de chegar ao mundo exterior. Não resiste a homenagear a obra paterna, e realiza em 1990 uma nova versão de A Máscara do Demónio: mas aí, a cores e sem Barbara Steele, o resultado está longe de ser brilhante. Finalmente, surge em 1992 com o brilhante Ritual da Morte, uma piscadela de olho aos serial-killers, com a nuance do envio de pedaços de cada uma das vítimas à potencial vítima seguinte. É mais um cineasta da hemoglobina, excessivo e delirante. Também a acompanhar com atenção.



E assim, de Bava (Mario) a Bava (Lamberto), se vai construindo a história do horror Italiano. Novos nomes emergem, de Marcello Avallone a Luigi Cozzi, passando pelos senhores dos filmes de canibais, Ruggero Deodato e Umberto Lenzi. E até mesmo o mestre dos efeitos especiais Sergio Stivaletti já se lançou na aventura da realização. É um Cinema forte, virado para plateias sedentas de emoções e onde o Medo, a Morte e o Sangue são os principais intérpretes. O Turno tem tentado divulgar algo deste universo. E promete continuar!

António Pascoalinho


Texto: Copyright © 2001 António Pascoalinho

 

Última actualização: 17-09-2001

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