O Canto do Tó é uma coluna que se pretende regular, um espaço
onde o venerável António Pascoalinho nos fala de tudo o que lhe vem à cabeça.
Sendo ele um grande apreciador e conhecedor do cinema de terror, com certeza que
os visitantes do Turno se sentirão (des?)confortáveis aqui... Desta vez o
grande mestre Tó regressa com um belíssimo ensaio sobre o cinema de terror
italiano, em particular sobre o giallo (significa «amarelo», a cor do
medo). Os realizadores na berlinda são Mario Bava, Dario Argento, Lucio Fulci,
Michele Soavi e Lamberto Bava.
Bava!
O Gore Italiano: Fulci!
Argento! de Bava a
Bava Soavi!
Considerado desde há alguns anos
como género menor dentro da arte cinematográfica e reservado exclusivamente a
pervertidos amantes do sangue e das mortes violentas, o gore (ou giallo
para os italianos) é um tipo de Cinema pouco divulgado pela distribuição no
nosso país, embora algumas (poucas) edições em video o tenham aproximado um
pouco mais do público nos últimos tempos.
Falo daqueles filmes virados para a
morte como espectáculo, em que a faca penetra nos músculos do pescoço, a bala
destrói "en passant" as cartilagens do tórax e o sangue jorra
abundantemente sobre os espectadores da primeira fila. Filmes esses nos quais o
Cinema Fantástico Italiano ganha papel de destaque. Consta ter sido I
Vampiri, de Riccardo Freda em 1957, o primeiro filme fantástico Italiano.
Mas foi o ex-director de fotografia Mario Bava quem definitivamente pegou no
género e explorou exaustivamente o filão, a ponto de o elevar ao estatuto de
obra de autor. E por isso se pode considerar Bava como fundador e mentor das
"goelas cortadas", o responsável pela teoria de que a morte deve ser
mostrada (por mais violenta que seja) e não apenas contada ou referida; dele
nasceram excessos visuais como A Máscara do Demónio
ou Baía
Sangrenta, inaugurando um conjunto de filmes excessivos e delirantes, que
grangearam junto do público numerosos adeptos. Discípulos directos do mestre
são realizadores como Dario Argento, Lucio Fulci, Michele Soavi ou o seu filho
Lamberto Bava: a carne nos seus filmes é arrancada à dentada tornando zombies,
estripadores e afins cada vez mais ameaçadores. Os técnicos de maquilhagem e
efeitos especiais ganham um papel preponderante. A ameaça aproxima-se e o
terror é mais real.
Os primeiros filmes de terror
realizados em Itália versavam temas como o vampirismo, a licantropia ou as
casas assombradas: intrigas clássicas, mais ou menos decalcadas dos filmes de
Terence Fisher e Freddie Francis na Inglaterra, ou de Roger Corman nos States. A
violência visual não era ainda explícita, como aquela a que estamos
habituados nos dias de hoje. Na década de 60, surge o filão dos filmes de
espionagem e aventura à la 007, de onde Devilmann Story é o
melhor exemplo. Até que, em 1969, surge um jovem desconhecido de nome Dario
Argento com o seu filme O Pássaro com Plumas de Cristal, verdadeiro
percursor do thriller à italiana, que deu início a um percurso de afirmação
do género e que só viria a terminar com a explosão das possessões
demoníacas, ocorrida em 1974 fruto do enorme sucesso mundial de O Exorcista,
de William Friedkin. Muitos decidiram seguir o modelo, como muitos outros
pegaram no modelo zombie, após o fulgurante A Noite dos Mortos-Vivos, de
George Romero em 1979. Mas o importante é que o Fantástico de Horror estava
definitivamente afirmado na cinematografia Italiana. E não mais pararia até
aos nossos dias..

FILMOGRAFIA SELECTIVA
MARIO BAVA (1914-1980)

Da obra de Mario Bava sobressaem os
primeiros grandes sucessos do horror Italiano: A Máscara do Demónio (1960),
uma história de feitiçaria e reencarnação que confirmou na ribalta os dotes
da então rainha do terror: Barbara Steele. Ficou célebre a sequência inicial
com a máscara pregada literalmente no rosto da feiticeira indefesa; Cinque
Bambole per la Luna d'Agosto (1970), um semi whodunit em que um grupo de
convidados para uma festa numa ilha acaba por ficar sozinho e indefeso, enquanto
os seus membros são chacinados um a um: com um cheirinho aos Ten Little Niggers
de Agatha Christie; esse fabuloso Baía Sangrenta (1971), verdadeiro percursor
da saga Sexta-Feira 13, onde um assassino psicopata (e mesmo mais que um), vai
eliminando por ganância os membros de uma família com as armas que consegue
arranjar, da forma mais violenta possível. A câmara acompanha os crimes, e nem
falta a sequência do casal de amantes que é trespassado por uma lança em
pleno acto sexual, como viria a ser moda no primeiro Sexta-Feira 13, de Sean S.
Cunningham, quase 10 anos depois; ou Lisa and the Devil (1972), uma incursão
pelos meandros do filme de demónios, com a turista Elke Sommer atormentada
pelos fantasmas da sua própria morte às mãos do perverso carrasco Telly
Savalas.
DARIO ARGENTO (1943- )

Do grande mestre do ghiaccio,
quase tudo é bom. Mas alguns títulos merecem especial atenção: O
Mistério da Casa Assombrada (1975), um dos primeiros filmes a explorar as
potencialidades do gore até às últimas consequências: facadas que penetram a
pele, estilhaços de vidro como arma perfurante e a fabulosa morte final no
elevador são disso um óptimo exemplo; Suspiria (1977) e Inferno
(1980), dois items da prometida trilogia sobre as Três Mães, da qual o opus 3
permanece por realizar: Mater Suspiriorum, a Mãe dos Suspiros, é uma bruxa com
enormes poderes que habita as catacumbas de uma Academia de Dança na Suíça. E
o horror vai despontar, quando uma aluna recém-chegada começa a investigar
mais do que devia (Suspiria). Mater Tenebrarum, a Mãe das Trevas, vive num
bloco de apartamentos em Nova Iorque. E não vai descansar enquanto não
eliminar cada um dos restantes inquilinos (Inferno). São duas obras
fortíssimas na filmografia de Argento, de um horror explícito, animado por
sons de rock e repleto das cores dominantes na paleta do seu realizador:
vermelho vivo e dourado. Sobre Mater Lacrimarum, a Mãe das Lágrimas, ainda
nada se sabe. Mas Argento promete regressar ao tema. Terror na Ópera (1987) é
talvez a obra mais perfeita do seu autor: demência, vingança, muito sangue e
uma violência visual de encenação barroca: a cantora amarrada com alfinetes
nos olhos, de modo a que não os possa fechar enquanto assiste ao assassínio do
namorado; ou a sequência da bala que atravessa um crâneo e termina no telefone
que a heroína usava para pedir auxílio, são imagens dignas de uma antologia
do horror. E onde Dario Argento já tem, forçosamente, lugar de merecido
destaque.
LUCIO FULCI (1927-1996)

Do grande Fulci, muito haveria a
dizer. Já filmou quase todos os géneros de terror, ficção científica e até
mesmo comédias. Mas as suas obras mais emblemáticas são, sem dúvida, o
enigmático Zombi 2 (1979), o filme de mortos-vivos que mais se aproxima do
livro de Peter Tremayne, com a célebre sequência da invasão de Nova Iorque
por um enorme bando de zombies que atravessa a ponte de Manhattan, e a não
menos célebre imagem da jovem que é assassinada no duche por uma farpa de
madeira que lhe atravessa literalmente uma das vistas. O Estripador de Nova
Iorque (1982), uma versão de Jack the Ripper à base de esquartejamentos com
lâminas de barbear. E a célebre trilogia dos infernos, composta por Os
Mistérios da Cidade Maldita (1980), As 7 Portas do Inferno (1981) e
A Casa do
Cemitério (1981): três obras de cariz mais ou menos exploratório, em que
cientistas ou pseudo-detectives tentam encontrar explicação para alguns
fenómenos do oculto e acabam sempre enredados em teias do maior horror:
demónios, zombies, adoradores de Satã e outros quejandos, num manancial de
sangue a rodos e goelas cortadas que parece não ter fim. Lucio Fulci lançou um
modelo de filmes de terror. E vasto é já o número dos seus seguidores.
MICHELE SOAVI (1957- )

Sobre o mais notável discípulo da
escola Dario Argento (e cuja obra foi divulgada em Portugal pelo Fantas), já
quase tudo foi escrito ou mostrado. Desde esse notável huis-clos num teatro
fechado onde um assassino psicopata dá largas aos seus instintos homicidas, que
dá pelo nome da A Noite do Medo (1987), ao portentoso exercício de estilo que
é Dellamorte Dellamore (1993), com as desventuras de um guarda de cemitérios
cuja missão é reenviar para o túmulo zombies teimosos e que acaba por se
apaixonar por uma das mortas revitalizadas. Entre estes dois filmes, Soavi rodou
A Catedral (1989), mais uma versão do terror em casas fechadas, que esteve para
se chamar Demoni 3 e enche de sangue e vísceras os claustros de uma catedral
gótica; e a mais desconhecida das suas obras, La Setta (1991), uma viagem pelos
adoradores do Além, com muitos sacrifícios rituais, torturas e imolações.
Michele Soavi é já um autor de horror. Apenas pouco prolífico. Aguardo
ansiosamente o seu próprio trabalho, uma nova versão de A Múmia, prometido
há mais de dois anos e a ser realizado já em Hollywood.
LAMBERTO BAVA (1944- )

Filho do mestre Mario, como atrás
referi, Lamberto conta já no seu curriculum com um manancial de horrores
cinematográficos bem dignos da herança que ostenta. Assistente de realização
em várias obras de seu pai, e depois de duas obras menores, emerge em 1985 com
o excelente Demoni, uma obra inteiramente rodada numa sala de cinema, onde o
filme que está a ser projectado vai ser responsável (com a ajuda de uma
máscara demoníaca), pela morte ou "zombificação" de todos os
espectadores presentes na sala. No ano seguinte, Lamberto repete a dose com
Demoni 2: L'Incubo Ritorna, numa receita similar, mas agora num bloco de
apartamentos com altos sistemas de segurança para impedir as vítimas de chegar
ao mundo exterior. Não resiste a homenagear a obra paterna, e realiza em 1990
uma nova versão de A Máscara do Demónio: mas aí, a cores e sem Barbara
Steele, o resultado está longe de ser brilhante. Finalmente, surge em 1992 com
o brilhante Ritual da Morte, uma piscadela de olho aos serial-killers, com a
nuance do envio de pedaços de cada uma das vítimas à potencial vítima
seguinte. É mais um cineasta da hemoglobina, excessivo e delirante. Também a
acompanhar com atenção.
E assim, de Bava (Mario) a Bava
(Lamberto), se vai construindo a história do horror Italiano. Novos nomes
emergem, de Marcello Avallone a Luigi Cozzi, passando pelos senhores dos filmes
de canibais, Ruggero Deodato e Umberto Lenzi. E até mesmo o mestre dos efeitos
especiais Sergio Stivaletti já se lançou na aventura da realização. É um
Cinema forte, virado para plateias sedentas de emoções e onde o Medo, a Morte
e o Sangue são os principais intérpretes. O Turno tem tentado divulgar algo deste universo. E promete continuar!
António Pascoalinho
Texto:
Copyright © 2001 António Pascoalinho