(Tradução e Adaptação de Ricardo Madeira)
Janet correu, aos tropeções pela noite, coração a bater, pulmões em chamas. Tudo que
conseguia ouvir eram a sua própria respiração serrada e os sussurros de folhas e estalos de galhos enquanto ia esmagando um caminho através da vegetação rasteira. Mas ela não precisava de ouvir o martelar das passadas para saber que ELE a seguia mesmo atrás.
Se ao menos ela não tivesse tido sexo com Billy, tivesse escutado a sua mãe e tivesse permanecido uma virgem. Se ao menos ela tivesse permanecido no acampamento com os outros
monitores. Se ao menos ela contribuísse mais para a caridade, fosse mais amável para os animais,
ajudasse os inválidos e doentes -
Uma enorme silhueta sem forma
ergueu-se à sua frente, o doentio luar amarelo
reflectindo-se no metal do machado. Janet começou a gritar, mas o único som que
emitiu era quente e gargarejado, à medida que o machado lhe mordia profundamente a garganta. Outra vez e outra e outra. . .
A cena anterior é o tipo de ficção produzido por muitos escritores de horror
principiantes, aqueles que de facto não leram muito dentro do género e ao invés baseiam as suas histórias em visionamentos inúmeros/umpty-leven dos filmes
Sexta-Feira 13 e Pesadelo em Elm Street. E enquanto tais filmes podem ter um impacto visceral
(o trocadilho é intencional), eles não constituem uma boa fonte de inspiração para
a ficção.
Os chamados "slasher films" e outros da sua laia confiam principalmente no
choque. E choque é um tipo de de coisa como o comboio fantasma na feira
popular. Confia numa surpresa visual e audível - um sujeito qualquer numa máscara de borracha e
peruca pavorosa que salta de uma entrada escurecido gritando “Uuga-buuga”! Tais efeitos são quase impossíveis de criar no papel. Eles têm que ser
experimentados ao vivo e em pessoa.
Além disso, mesmo que se pudesse criar
com eficácia choque em histórias escritas, porque é que se quereria fazer isso? É uma técnica extremamente limitada. A audiência poderia engasgar-se e saltar uma ou duas vezes quando a caixa de surpresas se abrisse e o boneco
horrível saltasse para fora, mas não importa quão bem feita a máquina de choques é, os leitores em breve se tornam tão dessensibilizados àqueles truques que eles não vão sequer transmitir às pessoas energia para bocejar.
Choque é um susto rápido, fácil, vazio e, para a audiência, insatisfatório
no final de contas. Os leitores querem horror que faz mais do que gritar “Buu”! Eles querem horror que os perturbe, os agite, que os agarre nas próprias entranhas com dedos ósseos e frios e lhes dê uma abanadela às vísceras. Então como se escrevem histórias que façam isto? Criando histórias
que vão beber ao horror pessoal.
Como o autor e crítico Douglas Winter apontou, o horror não é um
género, mas ao invés uma emoção. Para escrever horror eficaz - e original - é necessário escavar
a nossa própria psique e descobrir o que nos assusta. Preocupados que ninguém fique amedrontado pelas mesmas coisas que vos amedrontam a vocês? Não estejam. Como disse Aristóteles, o único modo para chegar ao universal é através do particular. Focalizando-nos nos nossos próprios medos pessoais e dando-lhes vida arrepiante no papel, estaremos a estabelecer uma ligação com a nossa audiência
- é garantido.
Comecem com a vossa infância. Tanto dá se os vossos anos de maravilha davam um filme de TV ou se foram (aparentemente) monótonos; qualquer pessoa que tenha sobrevivido à infância tem uma riqueza de material para histórias à espera de ser minado.
O que é que vos metia medo quando eram crianças? O escuro; trovões e relâmpagos; o pastor alemão latindo na casa ao lado; a Mamã e o Papá a berrarem a um com o outro? Façam uma lista dos vossos papões de infância, e escrevam pelo menos um parágrafo sobre cada item. Não pensem em termos de história, escrevam apenas aquilo que vos vier à mente. Tentem focalizar-se nos vossos
sentimentos e no que desencadeou esses sentimentos - lembrem-se que o horror é uma emoção.
E também não têm que ser medos óbvios. A minha mãe disse-me uma vez que, quando eu era pequenino, tinha medo de penas. O que é que é tão assustador nas penas? Bem, elas têm aquelas extremidades peludas, e as suas hastes espinhosas podem espetar-nos. E o modo como elas caem flutuando tão lentamente, como se não quisessem deixar o ar. De onde vêm elas? A mamã diz que elas vêm dos pássaros, mas eu nunca vi nenhum pássaro deixar penas dentro da casa. E se elas vêm de um outro lugar?
Se vêm de uma outra coisa? E se, por alguma razão, elas vêm de mim?
Talvez eu nunca chegue a fazer uma história sobre esta pequena fobia de infância mas, se o fizer, será certamente original!
Em seguida - e isto poderá ser difícil
- façam uma lista de quaisquer eventos perturbantes da vossa infância. Encontros
no recreio da escola com rufiões, doenças graves, mortes de amigos e membros de família. Mais uma vez, escrevam pelo menos um parágrafo
sobre cada item.
Quando eu tinha à volta de cinco ou seis anos, a minha mãe queimou-se com gravidade ao tirar um assado do forno. Lembro-me de ela estar no hospital, os médicos a retirarem-lhe pele das pernas e das costas para usarem como enxertos. Lembro-me do sentimento
de desconforto no meu peito quando mais tarde, depois de estar curada, ela me deixou tocar o remendo castanho de pele fina e lisa na palma dela. As extremidades eram tão distintas; era quase como se eu pudesse beliscá-las entre os meus dedos polegar e indicador e descascar lentamente a carne emprestada da minha mãe para revelar os segredos húmidos que jaziam
no interior.
Remexer nos vossos traumas de infância pode não ser fácil, pode até ser perturbador para alguns de vocês. Mas se querem escrever horror - horror
real, não algo do tipo Freddy versus Jason - então precisam de ter pelo menos um conhecimento do vosso lado escuro. Além disso, escrever sai mais barato
do que fazer terapia.
A infância é um tempo em que tudo é novo, maravilhoso e aterrorizante. Um tempo em que sentimos emoções bem profundamente. E é esse tipo de curtas e intensas emoções que queremos chamar e usar para escrever a nossa ficção de horror. Mas não precisamos de limitar esta exploração do nosso íntimo ao passado.
Prestem atenção aos eventos nos noticiários que vos transtornam e enfurecem. Cortem artigos de jornais e revistas e guardem-nos num dossier. Não se limitem a coleccionar todos os artigo sobre assassinatos que encontrarem. Procurem por histórias que vos despertem uma
reacção emocional, histórias que vos fascinem.
Um das notícias que coleccionei fala
de um bloco de apartamentos dentro de uma cidade universitária que tem uma cadeira
eléctrica empoleirada no telhado. De acordo com o artigo, os ocupantes actuais não
fazem nenhuma ideia sobre quem pôs a cadeira lá em cima e porquê. Estava lá quando eles se mudaram. Como eles disseram,
Está lá desde sempre.
Ora aqui está uma história à espera de acontecer!
Outra área que podem explorar para obter ideias é o reino
dos sonhos. Todas as manhãs, assim que se levantam, registem os vossos sonhos num diário. Um amigo meu na faculdade mantinha diários de sonhos há anos. Quando começou, apenas se lembrava de ter dois ou três sonhos por noite. Mas depois de alguns anos a escrever fielmente no seu
diário, ele recordava-se habitualmente de quinze ou dezesseis. E se muitos deles não eram mais do que
pedacinhos de vida quotidiana re-exibidos no ecrã dos sonhos, ele tinha sempre pelo menos um par que era bastante surrealista e perturbante.
Tudo somado ao final de um ano, isto significa muitas
ideias potenciais para histórias.
Num sonho que me ocorre periodicamente, vejo-me perdido e vagueando dentro de um edifício de infinitas divisões e corredores que parecem crescer continuamente e mudar ao meu redor. Certa vez,
acordei de uma soneca no sofá a lembrar-me de um sonho que tinha tido há pouco. Nele, uma bruxa ficou grávida e aquilo que o seu
demónio familiar pensava era que o feto era um tumor que estava a matar a sua senhora. Aquele sonho tornou-se na minha história “Newcomer,” que foi
publicada em
100 Wicked Little Witch Stories.
Nos nossos sonhos, as nossas defesas e pretensões são postas de lado, e somos mais nós próprios. Os vossos sonhos são únicos; usem-nos para escrever histórias que são exclusivamente vossas.
Outra técnica (uma que eu roubei ao Stephen King), é dar uma olhadela à nossa volta e deixar a nossa imaginação
tornar-se paranóica. Escolham um aspecto secundário da vossa vida ou um qualquer evento ordinário e digam a vós próprios que há algo de errado nele. Gravemente errado.
Não muito longe de onde eu vivo há casa onde o relvado está sempre perfeito.
E quero dizer perfeito, em todos os aspectos. A relva está sempre à mesma altura, com a mesma sombra de verde, os bordos sempre limpos e direitos. Mas nunca vi ninguém a trabalhar no relvado. Na verdade, nunca vi ninguém
entrar ou sair da casa. Na realidade o quintal provavelmente pertence a um reformado com muito tempo
entre mãos. Mas quando olho para aquele relvado e me digo que algo está gravemente errado com aquilo, começo a desejar saber que tipo de rígido e obcecado
jardineiro Nazi seria preciso para manter um relvado assim. E o que aconteceria se alguém decidisse mexer naquele quintal...
Falando de relvados, num dia de Verão estava a cortar o meu, e quando me aproximei da calçada, vi um pedaço amarrotado de pano branco que eu sabia não ter estado lá quando comecei a cortar. Parei o cortador, caminhei até lá, e apanhei o que se revelou ser uma meia sangrenta. Moro numa rua de grande azáfama, por isso estou habituado a encontrar todos os tipos de artigos estranhos que
palhaços-poluidores atiram para fora das janelas dos seus carros. Mas nunca encontrei uma coisa assim antes. Tive um lampejo rápido - e se houvesse algo de gravemente errado com esta meia?
E se ela tivesse sido atirada para fora de um carro por alguém que estava ferido, talvez
aslguém sendo mantido cativo? Pior, e se fosse uma das meias da minha esposa? O cortador de relva fazia muito barulho, e eu não tinha estado a observar a porta da frente. E se por alguma razão ela estava estado ferida e tinha saído de casa sem me dizer? E se ela - e nossa filha de dois anos de idade - tivessem sido
levadas de casa?
Atirei a meia para o lixo, e entrei dentro de casa para lavar as mãos
e também, admito-o, para ver das minhas esposa e filha. Ambas estavam bem, claro, mas graças a um
pouco consciente (e ligeiramente ferido) motorista ou passageiro, tinha agora os começos de uma história nova.
Finalmente, perguntem a vocês próprios o que é
mais importante, mais querido para vós. O que é que estimam? Quem é que amam? Agora perguntem a vós próprios, o que seria se estas coisas fossem ameaçadas, afastados, alteradas, viradas contra
vós? Como se sentiriam? E mais importante, o que é que fariam acerca disso? As vossas respostas a estas perguntas provindenciar-vos-ão algumas das vossas melhores e mais pessoais
ideias para histórias.
Bem vistas as coisas, é simples: se quiserem escrever horror verdadeiramente eficaz, não se limitem a
reciclar o imaginário de outros. Escrevam as histórias que apenas vocês podem contar.
E enquanto o fazem, façam mijar de medo os restantes de nós.

Tim Waggoner escreveu a sua primeira história aos cinco anos de idade, quando
criou uma versão de banda desenhada de King Kong vs Godzilla num bloco de
papel. No entanto, tiveram de passar mais alguns anos até que ele começasse a
vender histórias profissionalmente. No total, Tim tem publicadas mais de
cinquenta histórias de fantasia e horror, assim como centenas de artigos não
ficção. Além de escrever ficção, Tim trabalhou como editor e repórter de
jornal. Ele ensina escritura criativa no Sinclair Community College em Dayton,
Ohio. Cindy, a sua esposa maravilhosa, é psicóloga (uma profissão útil para
os cônjuges de escritores). O casal tem duas filhas espertas e bonitas, Devon
e Leigh. Tim espera continuar a escrever e ensinar até cair morto; depois quer
ser empalhado e colocado em frente ao terminal do seu computador.
Visitem a sua página pessoal: http://www.sff.net/people/Tim.Waggoner

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Waggoner
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