Stephen 'Bachman' King
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King tornou-se Bachman,
e Bachman tornou-se Rei
por Ricardo Rebelo

 

        Do Editor:

O Turno Da Noite nasceu, entre outros motivos, para divulgar o Horror em Portugal, e nos países de Língua Portuguesa, para trazer o Terror a todas as cidades, a todas as casas, a todos os leitores e cibernautas. Assim, poucas coisas nos dão mais prazer do que ir contaminando aos poucos o grande público, subtil mas seguramente, sempre escondidos nas sombras. E foi exactamente isso que Ricardo Rebelo e o Turno da Noite acabaram de fazer. Este artigo foi recentemente publicado num dos sites mais visitados pelo povo lusófono, o Terràvista, com honras de primeira página e tudo. Leiam-no (dividido em cinco partes, por razões logísticas e de facilidade de leitura), neste endereço. Para Stephen King, o escritor mais vendido em todo o mundo, esta divulgação entre os cibernautas lusófonos terá sido apenas um pequeno passo, mas sem dúvida que foi um grande passo para a implantação do Terror como género literário reconhecido em Portugal.

 

Foto do Rei - Stephen King (Copyright Tabitha King)A maior parte das pessoas encara Carrie como o primeiro livro escrito por Stephen King. Elas têm razão... e não têm.

Antes de escrever e (finalmente) publicar Carrie, Stephen King escreveu cinco novelas. De acordo com o autor, duas não prestavam, duas eram boas e uma ficava pelo meio. Todas essas obras foram recusadas pelas editoras e Carrie  foi portanto o primeiro livro a ser publicado com o seu nome. Enquanto continuava a sua carreira de escritor Stephen King escreveu um livro que optou por não publicar de imediato, chamado The Running Man.

Apesar de nem o própio ter uma ideia muito clara porque o fez, Stephen King deu consigo a regressar às suas obras pré-Carrie. A maior parte delas tinha sido escrito, segundo King, "num estado de raiva latente, frustração sexual, humor incerto e desespero". Nessa altura, King não tinha sido um escritor preocupado com finais felizes e, pelo contrário, transferia as suas frustrações e dificuldades para as histórias e para os seus finais. Pareceu-lhe, de todo, terem sido escritos por uma pessoa completamente diferente.

Por essa altura, em que King se estava a tornar o escritor mais lido nos Estados Unidos (e, pouco depois, no mundo), a sua editora não queria inundar o mercado com livros novos de Stephen King a cada três meses e "proibiu" o escritor de publicar mais do que um ou dois livros por ano. E isso já Stephen King estava a escrever. Mais, até.
Então, perante um problema economicista de não poder inundar o mercado e o desejo de publicar os seus primeiros livros, Stephen King concebeu mais uma personagem. Um escritor em part-time, que tinha como profissão a agricultura e a pecuária numa quinta em New Hampshire. Era casado com Claudia Inez. Tinha tido um filho que morrera ao cair num poço da quinta. Era um homem sombrio e amargurado. Levantava-se cedo para ordenhar as vacas e tratar do campo. Ao fim do dia, sentava-se na sua máquina de escrever com um copo de whiskey ao lado. O nome desse agricultor era Richard Bachman. Ele escreveria e publicaria os livros de King.

A solução de compromisso agradou tanto às editoras como a King, que exigiu sigilo absoluto e se certificou de que os livros eram publicados sem grande alarido e com nenhuma promoção, em edições económicas, daquelas que se encontram nas estantes de quiosques em estações de comboio. A sua vontade era ver até onde os livros iam sem um nome de marca para os levar e, por outro lado, partilhar com o público uma faceta dele que deixara para trás quando os seus problemas financeiros terminaram.

O primeiro livro, chamado originalmente Getting It On mas publicado com o nome Rage, contava a história de um aluno que um dia, cansado de frustrações e seriamente perturbado, pega literalmente em armas e invade a sua escola matando e raptando indiscriminadamente.

Seguiu-se The Long Walk, uma história de um futuro cruel e desumano, e Roadwork. Este último é o pior deles todos, segundo King, por ter sido escrito logo a seguir à dolorosa morte da sua mãe, num esforço de criar uma história "boa" e até "normal". O quarto dos livros de Bachman foi The Running Man, passado para o cinema num filme com o mesmo nome protagonizado por Arnold Shwartzenegger. Todos os livros eram, em maior ou menor extensão, livros sem consciência, na medida em não parecia existir qualquer moral, qualquer final feliz ou qualquer lição.

Apesar de todo o sigilo, a partir do momento em que Bachman publicou Rage, SKing começou a receber cartas de leitores que diziam sempre a mesma coisa, "Sabe? Anda aí outro escritor que escreve num estilo igualzinho ao seu," ao que King respondia sempre, "Não se preocupe, porque eu conheço-o e é meu amigo."

Apesar de algumas ligações esporádicas e sem expressão, o segredo manteve-se bem até a publicação de Thinner, um livro de terror sobrenatural escrito por King para ser publicado sob o nome de Bachman. Com este livro, King pretendia colocar Bachman na lista dos best-sellers. E conseguiu, não evitando o fim do mito. Para despistar os leitores, King dedicou o livro a Claudia Inez Bachman, a suposta mulher de Richard Bachman. E colocou mesmo a fotografia de um agricultor na sua quinta, na contracapa. Foi também o primeiro livro de Bachman e ser publicado em edição hardcover.

"THINNER" vendeu 28 000 cópias, o que não era muito mas foi o bastante para despertar a curiosidade de um livreiro de Washington chamado Steve Bronw, que consultou os registos de copyright de Richard Bachman na Biblioteca do Congresso. O direitos de autor estavam em nome de Stephen Edwin King. Um erro de preenchimento de formulários pela editora, que King nunca chegou a ver.

O que Steve Brown fez já tinha sido feito por alguns livreiros que, no entanto, tinham decidido manter o sigilo. Foi assim que a verdade se tornou pública. King era Bachman e, durante algum tempo, Bachman foi rei. Todos os livros por ele publicados, há muito tempo já fora de circulação, foram reeditados e vendidos. O livro "THINNER" que tinha vendido 28 000 cópias antes de se saber da verdadeira identidade do seu escritor, vendeu mais 280 000 quando se soube que tinha vindo da imaginação de Stephen King.

Mas King não ficou contente. Tinha-se habituado à ideia de Bachman, e estava a pensar em mantê-lo permanentemente. Um pequeno erro no preenchimento de formulários tinha acabado com tudo isso. Nas suas palavras King sentia-se "roubado" porque Bachman não era um pseudónimo de curto prazo. Estava "chateado, surpreendido e furioso". De tal modo que King só reagiu publicamente alguns dias depois, confirmando a história e anunciando que Richard Bachman tinha morrido naquele dia, de cancro.

A situação inspirou King a escrever The Dark Half, um livro sobre um escritor perseguido pelo seu pseudónimo, e que ele dedicou ao falecido Richard Bachman.

Todo os livros de Bachman, excepto Thinner, foram publicados num único volume intitulado The Bachman Books, com uma introdução de King na qual a sua frustração e irritação é visível.

A história de Rage veio a tornar-se tragicamente profética, na medida em que na década de 90 vários alunos armados entraram nas suas escolas disparando indiscriminadamente, normalmente suicidando-se em seguida. A ideia de ter contribuído, de alguma forma, para o fenómeno social dos tiroteios nas escolas (uma ideia reforçada em casos quando a polícia chegou a contactar Stephen King para saber o que é que ele pensava que o raptor faria a seguir!) não lhe agradou, e King retirou Rage de circulação. A única forma de se encontrar actualmente esta história é na edição britânica de The Bachman Books, até esta esgotar. Num futuro próximo, Rage desaparecerá de vez.

A história devia terminar por aqui, mas tratando-se de Stephen King, há mais. Em meados da década de 90, Stephen King estava a terminar a novela Desperation, uma história de horror sobrenatural, muito diferente do que ele tinha feito nos anos anteriores. Enquanto imprimia uma versão da sua novela, Stephen King tinha na sua impressora um autocolante com o nome Regulators. Referia-se a uma história que ele queria escrever sobre brinquedos, televisão, armas e sexo. Só não tinha ainda as personagens.

Alguns dias depois, enquanto arrumava o carro na garagem, Stephen King lembrou-se de usar as mesmas personagens em Desperation e Regulators. Com algumas diferenças, atitudes diferentes e situações diferentes, mas as mesmas personagens. Utilizaria também o mesmo vilão, com uma origem semelhante. Apenas o local e desenlace da história seria diferente. Stephen King brincou com a ideia na sua mente durante algum tempo, mas percebeu logo que dois livros escritos por ele, com as mesmas personagens e o mesmo vilão, embora em situações diferentes, seria tratado pela crítica como uma manobra para disfarçar uma falta de ideias que ele não tinha.
Foi então que lhe ocorreu. Richard Bachman escreveria Regulators, uma história ainda mais brutal e chocante do que Desperation. Mas Bachman tinha morrido de cancro, pelo que a história de como a sua mulher (Claudia Bachman) encontrou o manuscrito num caixote do sótão na quinta é contada pelo editor, no próprio livro. Na contracapa os leitores podem ver a fotografia de um jovem Stephen King, irreconhecível, mal vestido, num quarto desarrumado, em frente á sua máquina de escrever. Quem olhar com atenção pode ver uma folha na máquina de escrever com o nome The Glass Floor no seu centro. Foi o nome de um dos primeiros contos alguma vez escritos por King.

Stephen King começou a escrever Regulators no mesmo dia em que terminou Desperation, e ambos tornaram-se dois dos maiores sucessos de King (e de Bachman).

Richard Bachman está morto. Disso, ninguém tem dúvidas. Também ninguém, a não ser a sua mulher, sente muitas saudades. Era um velho amargo e sem consciência. Mas Stephen King, que o conheceu de perto, pergunta-se se não irão aparecer mais manuscritos naquele sótão em New Hempshire. Ultimamente, ele tem pensado muito nisso...

Ricardo Rebelo, o autorRicardo Rebelo nasceu em Angola em 1977 e instalou-se definitivamente em Portugal no ano de 1981. Viveu um ano na vila de Tabuaço e, em 1982, mudou-se para Gondomar (distrito do Porto), onde ainda reside. Terminou a sua licenciatura em Economia na Universidade Portucalense em 2001, e encontra-se neste momento a trabalhar numa importante empresa de consultadoria em Lisboa.

Desde o dia em que viu o filme "Shinning", em 1986, que se interessou pelos temas do fantástico e do terror, sendo um leitor ávido das obras de Stephen King e James Herbert. Nos poucos tempos livres que tem, escreve alguns contos e novelas encontrando-se a preparar uma novela com o título provisório de "Samhein" com a qual pretende concorrer ao Prémio de Ficção Literária Fnac/Teorema numa das suas próximas edições. Outros dos seus interesses incluem o estudo dos crimes de Jack, o Estripador, bem como a astronomia amadora.

O autor ganhou recentemente o segundo prémio no 1º Concurso Literário de Contos de Terror, promovido pelo Turno da Noite.

Ricardo Rebelo pelo ser contactado pelo seguinte e-mail: ricardorebelo@ip.pt

O Rei Stephen King: Copyright © 2000 Ricardo Rebelo

Adaptação para HTML por Ricardo Madeira

 

Última actualização: 17-09-2001

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