O Rei Stephen King
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O Rei Stephen King
por Ricardo Rebelo

 

        Do Editor:

O Turno Da Noite nasceu, entre outros motivos, para divulgar o Horror em Portugal, e nos países de Língua Portuguesa, para trazer o Terror a todas as cidades, a todas as casas, a todos os leitores e cibernautas. Assim, poucas coisas nos dão mais prazer do que ir contaminando aos poucos o grande público, subtil mas seguramente, sempre escondidos nas sombras. E foi exactamente isso que Ricardo Rebelo e o Turno da Noite acabaram de fazer. Este artigo foi recentemente publicado num dos sites mais visitados pelo povo lusófono, o Terràvista, com honras de primeira página e tudo. Leiam-no (dividido em cinco partes, por razões logísticas e de facilidade de leitura), neste endereço. Para Stephen King, o escritor mais vendido em todo o mundo, esta divulgação entre os cibernautas lusófonos terá sido apenas um pequeno passo, mas sem dúvida que foi um grande passo para a implantação do Horror como género literário reconhecido em Portugal.

O Turno quer aqui agradecer publicamente ao autor do artigo, Ricardo Rebelo, pela paciência demonstrada enquanto esperava para saber o que é que este editor andava a fazer com o artigo, e ao pessoal do Terràvista.

 

Foto do Rei - Stephen King (Copyright Tabitha King)Cerca de 20 anos depois de ter publicado o seu primeiro romance (Carrie), que fora recuperado do cesto do lixo pela sua mulher, Stephen King abandonou definitivamente o estatuto de escritor e, fazendo justiça ao seu sobrenome, tornou-se o Rei Midas da literatura moderna. Tudo aquilo em que toca transforma-se em ouro e é transaccionado como tal.

Talvez tenha sido por isso que em 1996 Stephen King decidiu fazer mais do escrever livros. Nesse ano, começou “a fazer experiências” ao abrigo do seu nome, o do escritor mais lido de todos os tempos. Na altura, sabia que o sucesso da primeira experiência estava garantido pois sabia que as pessoas “comprariam a sua lista de compras” se ele a publicasse, apenas por causa do autor. Mas também sabia que demasiadas experiências mal sucedidas poderiam  levar as pessoas a esquecer o autor e lembrar-se dos fracassos.

A sua primeira experiência foi a publicação de dois livros em simultâneo. Um acto invulgar em si tornou-se bastante mais bizarro quando os leitores leram o seu conteúdo. Em ambos os livros estão algumas das cenas e histórias mais perturbadoras e chocantes escritas pelo autor. Em ambos os livros as personagens são as mesmas mas encontram-se em situações completamente diferentes. Em ambos os livros as personagens confrontam-se com o mesmo adversário mas, mais uma vez, num cenário totalmente diferente. E, num toque de génio, Stephen King assinou um dos livros com o seu nome e o outro com o nome do seu pseudónimo “Richard Bachman”, algo que não fazia há cerca de dez anos depois de ter anunciado ao mundo que Richard Bachman morrera de cancro.

Dessa forma “Desperation” (assinado por King) e “The Regulators” (assinado por Bachman constituíram a primeira experiência do autor decidido a fazer mais do que contar histórias. Decidido, ele próprio, a fazer história.

O sucesso dos livros, em parte por causa da novidade e em parte porque marcava o regresso de King ao horror sobrenatural mais puro, impulsionaram-no a novas experiências.

O que se seguiu foi uma jogada ainda mais arriscada que a primeira. Seguindo o exemplo de Charles Dickens, Stephen King teve a ideia de escrever uma história em fascículos que seriam publicados regularmente. Na altura de Dickens esse método devia-se ao elevado custo que os livros poderiam assumir e tornava a sua compra mais fácil para os leitores. Na actualidade passa-se exactamente o contrário e a lei das economias de escala determina ser muito mais barato publicar um único livro do que fascículos separados. Apesar disso Stephen King seguiu em frente com a ideia e “The Green Mile” foi vendido em seis fascículos separados, cada um quase ao preço de um livro completo.

The Green MileO sucesso de vendas foi tremendo, apesar de, no fim da história, os leitores terem pago cerca de três vezes mais do que pagariam (e podem agora pagar) pela história completa. Mais uma vez, o sucesso desta iniciativa deveu-se ao nome e fama de King mas a história publicada também pode ser qualificada como uma das melhores de todos os tempos, apesar de estar longe de ser uma história de terror. Fala do encontro de um guarda prisional, encarregue das execuções no corredor da morte de uma prisão norte americana, com um homem condenado á morte por homicídio mas que era, na verdade, um “milagre de Deus”. Além da tragédia de um anjo condenado á morte, Stephen King consegue retractar com uma humanidade raramente vista, os dramas dos prisioneiros no corredor da morte, os dilemas dos carcereiros e a realidade da pena de morte.

“The Green Mile” pode ser considerado um dos maiores sucessos de King. Depois de ter sido publicada como um único livro, foi magistralmente adaptada para cinema por Frank Darabont (o mesmo que já tinha adapatado “The Shawshank Redemption” – “Os Prisioneiors de Shawshank”, também de King) num filme com o mesmo nome e que passou em Portugal com o nome “Á Espera de um Milagre”. O próprio argumento, que segue integralmente o livro e leva um filme com três horas, foi editado e publicado tendo-se tornado um best-seller. O filme em si foi candidato a diversos Óscares da Academia de Hollywood, incluindo “Melhor Filme”.

Ainda este ano, “The Green Mile” será publicado em edição “hardcover”, o que é quase inédito acontecer 4 anos depois da edição “paperback” ter sido publicada.

A ideia para a história de “The Green Mile” começou na cabeça de King com uma imagem de um homem bondoso preso no corredor da morte, a praticar truques de magia. Foi outra imagem de um homem na prisão, um homem de natureza totalmente oposta, que levou King na sua aventura seguinte.

Apesar de ter escrito argumentos antes, alguns deles originais, Stephen King nunca o tinha feito para uma mini-série e especialmente por iniciativa própria. Quando começou a escrever o argumento de “A Tempestade do Século” (tinha de ser um argumento pois, segundo King, haviam imagens na história que não seria fácil colocar num livro) ele não fazia ideia se alguma vez este seria filmado. Se não fosse, Stephen King brincou com a ideia de o transformar num livro.

Mas como seria de esperar, as produtoras saltaram imediatamente perante a ideia de um argumento original escrito por King e alguns meses depois de o ter o começado a escrever, “A Tempestade do Século” estava a ser filmada. Stephen King acompanhou a produção de perto e publicou igualmente o argumento original. Também este se tornou um best-seller. Stephen King tinha transformado guiões de filmes em best-sellers.

Algum tempo depois, Stephen King foi atropelado enquanto caminhava perto de sua casa, quase tendo perdido a vida. Depois ter sido submetido a inúmeras intervenções cirúrgicas e ter passado por um doloroso processo de recuperação (que ainda não terminou), Stephen King regressou ás experiências.

Stephen King's F13 - Leia aqui a crítica!Desta vez o campo escolhido foi a informática. Stephen King lançou um website oficial (www.stephenking.com), que o escritor gere, juntamente como seu staff. Pouco tempo depois lançou um package de software com o seu nome e em cuja criação participou activamente. Podendo ser considerada como a menos bem sucedida experiência de King (devido ao elevado preço e relativa fraca qualidade do produto), o package constitui um conjunto de aplicações para o desktop, screen-savers, alguns jogos macabros para passar o tempo e uma história nunca antes publicada em livro para o grande publico (“Everything´s Eventual”). Apesar disso, o nome de King teve o seu peso e F13 pode ser considerado como um dos screen-savers mais caros e mais vendidos de sempre.

Não tendo desanimado com o sucesso apenas relativo de F13, Stephen King voltou ás experiências informáticas, desta vez com a publicação de um conto de 63 páginas (“Riding the Bullet”) em formato de livro electrónico “ebook” apenas disponível na Internet, podendo ser descarregado contra o pagamento do equivalente a 600$. Alguns sites, como a Amazon.com, ofereceram o ebook gratuitamente (muita gente não deve ter estado atento ao facto pois mais de 500.000 pessoas pagaram o download) mas surgia sempre o problema da codificação.

Efectivamente, o livro não podia ser impresso nem copiado para uma aplicação que o permitisse. Em 48 horas, hackers decifraram uma complicada encriptação e colocaram o arquivo em sites piratas, onde as pessoas podiam descarregar gratuitamente e, melhor que isso, imprimir sem qualquer dificuldade. O facto incomodou King não pela perda de receitas mas pela desonestidade que parecia ser a regra da Internet.

Algumas semanas depois do sucedido, Stephen King recebeu em sua casa um envelope com algum dinheiro, de um cibernauta que havia descarregado “Riding the Bullet” de um site pirata mas estava agora com problemas de consciência. Esse facto deu a King a ideia de pôr á prova a honestidade das pessoas, em especial dos seus leitores.

Quase vinte anos antes, Stephen King tinha começado a escrever uma história chamada “The Plant”, oferecendo cada capítulo ao amigos em ocasiões especiais. O interesse perdeu-se e King acabou por escrever apenas três capítulos.

Alguns dias depois de ter recebido a carta do leitor, os visitantes regulares do seu site depararam-se com um comunicado e uma pergunta do próprio escritor. Devido a toda a confusão que tinha havido com o “Riding the Bullet”, ele estava a pensar publicar uma história no seu website, onde os leitores podiam descarregar. Não seria sequer codificado. Se quisessem imprimir, poderiam. Se quisessem fazer cópias, podiam.

Tudo o que o escritor pedia era que pagassem um dólar por cada download feito. Mas mesmo assim, não eram obrigados a pagar. Podiam descarregar sem pagar. Só havia um “senão”. A história só continuaria se mais de 75% dos leitores que a descarregassem, pagassem. Se isso acontecesse, Stephen King comprometia-se a levar a história até ao fim, publicando um capitulo por mês, a um dólar. Quando a percentagem dos leitores honestos descer abaixo de 75%, a história pára (“If you pay, the story rolls. If you don´t, it folds”).

A resposta foi francamente positiva por parte dos cibernautas e assim a primeira parte de “The Plant”” foi colocada online no dia 21 de Julho. Registaram-se dezenas de milhares de downloads, a maior parte dos quais pagos no acto. Outros leitores optaram por enviar o dinheiro directamente (um enviou mesmo um dólar em prata!) e outros pagaram mais do que um dólar para cobrir alguns dos “desonestos”.

Actualmente, a percentagem de pagadores continua acima de 75% e a terceira parte estará online no dia 21 de Setembro. Esta experiência, feita á revelia da sua editora, é inédita em todo mundo e muitos especialistas dizem que o seu sucesso se deve ao nome de Stephen King e a lealdade que este gera nos seus leitores (ora comunicando com eles directamente pelos seus livros, ora pelas mensagens fixadas pelo escritor no seu website).

Durante estes cinco anos de experiências, Stephen King também publicou livros na sua forma convencional. Entre eles contam-se “Bag of Bones”, “The Girl Who Loved Tom Gordon”, “Dark Tower IV” e “Hearts In Atlantis”. Também reeditou os seus livros mais antigos como “Carrie” ou “Salem´s Lot” com novas introduções. Publicou os livros de Richard Bachman com o nome de Stephen King (excepto “Rage”) e leu o seu livro “Bag of Bones” para gravação em audiobook.

Audiobook "Blood And Smoke"A experiência de gravar um audiobook foi tão interessante, que King resolveu repeti-la. Mas desta vez não escolheu um livro já publicado. Antes, editou um audiobook com três histórias inéditas. Deu-lhe o título de “Blood & Smoke” sendo o nome derivado do facto de todas as personagens terem uma relação mais ou menos intensa com o tabaco.  A própria caixa de 4 CDs vem numa caixa de cartão vermelho e branco, em tudo semelhante a um maço de Marlboro.

O próximo livro de Stephen King é posto á venda no dia três de Outubro. Mais uma vez, algo diferente. Neste livro (“On Writing: A Memoir of the Craft”) Stephen King conta a sua história, desde os primeiros tempos até ao atropelamento que quase lhe custou a vida. A outra metade do livro é dedicada á arte de escrever, em especial de escrever horror. Stephen King fala de porque se faz, como se faz (como ele faz) e como tratar cada aspecto de uma história. Enfim, um livro didácticto tanto para quem quer saber mais sobre o homem Stephen King, da boca do próprio, como para quem quer aprender a escrever terror com o mestre.

Os planos de Stephen King, a partir de agora, são conhecidos. Escrever, juntamente com Peter Straub, a continuação de “O Talismã”. Também planeia editar o livro “Dark Tower V” em 2001 e “Dark Tower VI” em 2002, concluindo, provavelmente, a saga.

Mas muitas experiências podem ainda ser feitas. “The Plant” está a decorrer neste preciso momento e Stephen King já disse que o tipo de experiências em que se tem envolvido nos últimos anos não são coisas planeadas como um livro. São espontâneas e a próxima pode vir já amanhã.

 

Ricardo Rebelo, o autorRicardo Rebelo nasceu em Angola em 1977 e instalou-se definitivamente em Portugal no ano de 1981. Viveu um ano na vila de Tabuaço e, em 1982, mudou-se para Gondomar (distrito do Porto), onde ainda reside. Terminou a sua licenciatura em Economia na Universidade Portucalense em 2001, e encontra-se neste momento a trabalhar numa importante empresa de consultadoria em Lisboa.

Desde o dia em que viu o filme "Shinning", em 1986, que se interessou pelos temas do fantástico e do terror, sendo um leitor ávido das obras de Stephen King e James Herbert. Nos poucos tempos livres que tem, escreve alguns contos e novelas encontrando-se a preparar uma novela com o título provisório de "Samhein" com a qual pretende concorrer ao Prémio de Ficção Literária Fnac/Teorema numa das suas próximas edições. Outros dos seus interesses incluem o estudo dos crimes de Jack, o Estripador, bem como a astronomia amadora.

O autor ganhou recentemente o segundo prémio no 1º Concurso Literário de Contos de Terror, promovido pelo Turno da Noite.

Ricardo Rebelo pelo ser contactado pelo seguinte e-mail: ricardorebelo@ip.pt

O Rei Stephen King: Copyright © 2000 Ricardo Rebelo

Adaptação para HTML por Ricardo Madeira

 

Última actualização: 17-09-2001

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