Hearts in Atlantis - Stephen King
por Ricardo Rebelo
Stephen
KING. Hearts in Atlantis. .
“Apesar de ser difícil de acreditar, os anos 60 não são uma obra de ficção.
Aconteceram realmente.” - Stephen King
Stephen King, cuja primeira novela, Carrie, foi publicada em 1974, o ano
anterior à retirada total das tropas americanas do Vietname, é o primeiro e mais
popular escritor da geração da TV. A sua adolescência viveu-a com Imagens da guerra do Vietname, e dos
protestos que a mesma gerou, que inundaram as casas dos americanos durante uma
década.
Em
Hearts in Atlantis Stephen King regressa á guerra do Vietname, para fazer um retrato fiel e emocionante de uma sociedade em guerra com
si própria. Trata-se uma narrativa invulgar, que deve pouco ou nada ao Terror a
que King habituou os seus leitores e tudo à sensibilidade e a uma extraordinária
capacidade narrativa.
O
livro é composto por cinco histórias, interligadas entre si, que se estendem
desde o início dos anos 60 até 1999, acompanhando o trajecto de vida do jovem
Bobby Garfield, dos seus amigos e inimigos, ao longo de quatro décadas.
A
primeira história, que ocupa quase metade do livro, é Low Men in Yellow Coats,
onde os leitores são apresentados a Bobby Garfield e á sua comunidade nos
subúrbios de Connecticut. Bobby Garfield é uma criança órfã de pai que vive com
a sua mãe obcecada apenas com dinheiro e com poupança. A preocupação de Bobby em
conseguir que a mãe lhe compre uma bicicleta por ocasião do seu aniversário é
esquecida quando este conhece o novo vizinho: Ted Brautigan. Ted é um homem
solitário e idoso que ensina a Bobby o gosto pela leitura e pelo valor dos
livros. Mas Ted é um homem sem passado que surgiu do nada, trazendo com ele um
segredo que poderá colocar em risco Bobby e toda a sua comunidade. Um dia, Ted
pede a Bobby para começar a estar atento á presença de estranhos na vizinhança.
Em especial, homens baixos com casacos amarelos, e a chegada dos mesmos, algumas
semanas depois, vai revelar tudo, ou quase tudo, sobre a origem do enigmático
Ted.
Esta história, a única em que o sobrenatural tem um papel fundamental, está
directamente ligada á saga da Dark Tower e a personagens que King tornou míticas
em livros como Insónia.
No
final, no entanto, os leitores ficam com tantas questões quanto respostas. Mais
do que uma assustadora história, ficam as personagens marcantes de Ted Brautigan
e a sua paixão pelos livros, Bobby Garfield e o seu fascínio por Ted e pela
pequena Carol, a mãe de Bobby e o seu comportamento obsessivo em relação ao
dinheiro e ao passado do pai de Bobby.
Esta história está agora a ser adaptada ao cinema, numa adaptação que promete
figurar entre as melhores dos livros de King (a par com The Green Mile e
The
Shawshank Redemption) e que vai contar com a interpretação de Anthony Hopkins.
Na
segunda história, Hearts in Atlantis, que dá o nome ao livro, os leitores
encontram a paixão de infância de Bobby, Carol, na universidade. Aí, um grupo de
estudantes vicia toda a universidade num jogo de cartas que leva vários á
falência e um deles ao suicídio. O leitor conhece em primeira mão a geração que
marchou violentamente contra a guerra do Vietname, os seus dramas, as suas
motivações e as suas paixões e assiste ao aparecimento do emblemático símbolo da
paz.
Stephen King retrata com a fidelidade de quem experimentou na primeira pessoa, a
geração dos anos 60 e a vida nas universidades americanas, que tentava decorrer
na normalidade enquanto que uma guerra era travada pelo seu país a milhares de
quilómetros de distância.
Os
viciantes jogos de cartas, as primeiras organizações de estudantes contra a
guerra do Vietname, o dia a dia de uma universidade (a do Maine, neste caso), os
conflitos pessoais e dramas familiares enriquecem uma narrativa que vai fazer
alguns leitores conhecerem uma época da qual apenas tinham ouvido falar e outros
regressar a uma época que nunca conseguiram realmente deixar.
Nas duas histórias seguintes, Blind Willie e Why We Are in Vietnam os leitores
são presenteados com retratos das vidas vazias e desfocadas de dois homens que
cresceram com Bobby nos subúrbios de Connecticut. São duas narrativas tristes e
deprimentes que mostram como vidas promissoras podem ser desperdiçadas por
fantasmas de crimes cometidos na infância e na guerra.
Willie é um homem que vive atormentado por uma brutal agressão que cometeu na
infância e da qual não consegue obter absolvição. Em vez disso, decide focar a
sua vida na exploração continuada das emoções dos outros, simulando uma
deficiência que não tem. Os leitores também conhecem Sully, uma amigo de Bobby,
traumatizado pela guerra do Vietname, na qual combateu e para a qual não
consegue, décadas depois, encontrar uma justificação aceitável.
Finalmente, em Heavenly Shades of Night are Falling, a emocionante conclusão
deste livro que se assume como uma crónica, um Bobby Garfield envelhecido
regressa á cidade da sua infância, onde o espera o funeral de um amigo, uma
mensagem de Ted Brautigan, uma surpresa inesperada e uma ultima hipótese de
redenção.
Este livro vem mais uma vez mostrar que Stephen King não é apenas o melhor
escritor de ficção de terror de sempre mas também que é um dos melhores
escritores de qualquer tipo de ficção. As personagens são tão reais que os
leitores sentirão a sua falta quando fecharem o livro, especialmente por terem
acompanhado a sua vida ao longo de quatro décadas. As narrativas são
emocionantes, algumas vezes assustadoras e outras tantas vezes hilariantes mas
sempre dramáticas.
Não será o livro preferido pelos leitores do género do terror mas figurará entre
os melhores para quem aprecia uma boa história, independentemente do género,
contada por quem o sabe fazer como ninguém.
O
livro não se encontra traduzido para português mas pode ser adquirido em
qualquer livraria internacional online (Barnes & Noble, Amazon, etc.). Está
disponível em hardcover, paperback e audiobook (lido por William Hurt e Stephen
King).

Ricardo Rebelo nasceu em Angola em 1977 e instalou-se definitivamente em
Portugal no ano de 1981. Viveu um ano na vila de Tabuaço e, em 1982, mudou-se para
Gondomar (distrito do Porto), onde ainda reside. Terminou a sua
licenciatura em Economia na Universidade Portucalense em 2001, e encontra-se
neste momento a trabalhar numa importante empresa de consultadoria em Lisboa.
Desde
o dia em que viu o filme "Shinning", em 1986, que se interessou pelos
temas do fantástico e do terror, sendo um leitor ávido das obras de Stephen
King e James Herbert. Nos poucos tempos livres que tem, escreve alguns contos e
novelas encontrando-se a preparar uma novela com o título provisório de "Samhein"
com a qual pretende concorrer ao Prémio de Ficção Literária Fnac/Teorema numa
das suas próximas edições.
Outros dos seus interesses incluem o estudo dos crimes de Jack, o Estripador,
bem como a astronomia amadora.
O
autor ganhou recentemente o segundo prémio no
1º Concurso Literário de Contos de Terror, promovido pelo Turno da Noite.
Ricardo
Rebelo pelo ser contactado pelo seguinte e-mail: ricardorebelo@ip.pt

Texto:
Copyright © 2001 Ricardo Rebelo
Adaptação para
HTML por Ricardo
Madeira