Livro: Bag Of Bones
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Bag of Bones - Stephen King

 

Stephen King - Bag Of Bones Stephen KING. Bag Of Bones. London, Hodder and Stoughton, 1999. [1ª edição: 1998]. 660 pp.. ISBN 0-340-71820-X. UK £6.99 [paperback].

Stephen King é um nome incontornável no género do Horror e do Fantástico. Da sua pena surgiram obras que marcaram o género e o tornaram conhecido do grande público. A cada novo livro seu, mais leitores vêm engordar as hostes dos viciados em adrenalina, boas histórias e bons personagens. Bag of Bones é um dos seus mais recentes livros. E é um livro mágico. Em mais sentidos do que um. Stephen King, mesmo piscando o olho a vários clássicos da literatura americana, não se afasta aqui muito dos géneros do Horror e do Fantástico. Bag of Bones é uma história de fantasmas, fantasmas do passado que voltam para nos assombrarem, metafórica e literalmente falando. Mas a magia está longe de ser apenas essa. O assunto não é novo, mas nas mãos de King tudo ganha uma nova perspectiva, um novo impacto. Ninguém conta histórias como ele.

A magia de Bag of Bones não se limita a meros fantasmas. O próprio livro é mágico. Alguns minutos, uma mão-cheia de páginas lidas e já não há modo de se voltar atrás. O leitor é de súbito puxado para um outro mundo. Um mundo que apenas se assemelha ao nosso. Um mundo mágico, porque ali as personagens são pessoas. Pessoas mais reais que o próprio leitor. Sentimo-nos desvanecer, perdemos a consciência que existimos. Penso, logo existo. As personagens do livro pensam mais e melhor do que nós... À volta do leitor, caras e rostos não passaram de máscaras mal-concebidas, que falam como robôs sem se aperceberem do que dizem e do que fazem. É assustador, mas verdade. As pessoas verdadeiras, as pessoas reais, essas estão dentro do livro.

Qualquer escritor sabe que os seus personagens têm de ser mais reais do que pessoas reais. De algum modo subtil, elas têm de nos ultrapassar, de nos transcender. Nos livros todos os personagens são interessantes, ou deviam ser; já na vida real - é altura de o aceitarmos -, na vida real, nem por isso. Os escritores, recorrendo apenas a frases e palavras, têm de criar algo mais. King faz isso muito bem; quem leu qualquer um dos seus romances já o sabe há muito. De facto, King faz o seu trabalho tão bem que ultrapassa os extremos. Os seus romances tornam-se a própria realidade para quem os lê. Não são precisos simulações computorizadas e óculos 3D para podermos emergir num outro mundo.

Vejamos o exemplo de Kyra. Ela é a criança que Deus criou, a criança-protótipo da qual todas as outras crianças são cópias imperfeitas. A pequena menina de 3 anos com a combinação certa de rebeldia, ingenuidade, doçura, beleza e esperteza. É com filhos assim que todos os pais sonham. Kyra é a própria definição de criança. Os putos traquinas que vemos nos centros comerciais aos berros em corridas ou birras deixam de merecer simpatia depois de, na nossa função de leitores, conhecermos Kyra.
Mas nem só de bons personagens vive a boa história. Há que ter dar atenção a prosa e trama. Quem leu King, conhece a sua prosa característica: simples e directa, sincera e arrebatadora. O homem não escreve como se tivesse um dicionário na cabeça; não precisa de usar uma linguagem aborrecidamente refinada, chama as coisas as coisas pelos nomes. E diz os grandes palavrões quando é preciso. Mesmo no inglês original, faz-se entender muito facilmente. O leitor Português terá menos problemas com a linguagem Inglesa do que com as referências que nos podem parecer crípticas mas que são, realmente, piscar de olhos à cultura e ao quotidiano do cidadão americano. Daí que, adiantando-nos um bocado, a tradutora de A Metade Sombria tenha sentido a necessidade de espalhar nodas de rodapé um pouco por todo o livro.

Quanto à trama de Bag of Bones... Este não é um livro que demore a "arrancar." Logo no parágrafo de abertura uma das personagens principais morre. O nosso narrador, Mike Noonan, um escritor de bestsellers, conta-nos como a sua mulher, Johanna, faleceu. Como ao longo de todo o romance, e sempre na primeira pessoa, fala num tom relativamente frio e distante, deixando as emoções para o leitor. Exactamente como um bom escritor deve fazer.

Mas Mike, o nosso narrador, não é apenas um bom escritor. É também um escritor que deixou de poder escrever. Após a morte da mulher, o bloqueio que se instala é terrível. Durante quatro anos, Mike engana o público e o seu editor com obras que mantinha guardadas para dias assim. Um dia as provisões acabam... e os pesadelos e sonhos começam.

Mike Noonan sonha em voltar a Sara Laughs, o belo retiro à beira-lago onde ele e a sua mulher viveram tempos bem felizes. Sara Laughs situa-se perto duma velha comunidade do interior rural americano, conhecida apenas como TR-90. Lá, algo sinistro aguarda pela chegada de Mike...

De volta à velha casa, as letras voltam a fluir da sua mente para o papel. Um novo romance está na calha. Mas enquanto escreve, o mundo complica-se à sua volta. Mike conhece Mattie Devore, uma jovem viúva, e a sua filha, a pequena Kyra. Não demora muito até o escritor recém-reencontrado se envolver nos problemas entre Mattie e o avô do falecido marido, Max Devore. Max é um homem velho e psicótico, cujo nome aparece nas enciclopédias logo depois da definição de "podre de rico". O idoso industrial procura obsessivamente ganhar a custódia de Kyra.

Felizmente, Mike Noonan é um escritor bem sucedido. Tem dinheiro para trazer de um Nova Iorque um bom advogado e pô-lo a tratar do caso. Mas será isso suficiente? O passado de Max está envolvido em névoas e rumores sinistros. Qual será afinal a razão porque quer a custódia da pequena bisneta tão desesperadamente? E que significado deverá Mike Noonan atribuir às visitas secretas que Johanna fez à TR-90 no ano anterior à sua morte? Quem era o homem que foi visto abraçado a ela?

À medida que Mike se envolve cada vez mais na batalha legal, e com própria Mattie também, torna-se evidente que outras forças, poderosas e invísiveis, estão interessadas no desfecho. Mike não está sozinho em Sara Laughs. Algo, alguém, o segue dentro da casa. De alguma maneira, Johanna parece tentar avisá-lo de alguma coisa; e onde quer que ela esteja, ela não está sozinha. Outros seres assombram as margens do lago.

Ao longo do livro, o mistério vai-se adensando. Bag of Bones teima em revelar ao leitor os seus segredos, mantendo-o na expectativa até ao fim. Passadas as primeiras cem páginas, em que o ritmo de acção é apenas morno, começa a tomar conta de nós aquela familiar sensação de urgência. A compulsão de ler mais e mais torna-se quase insuportável. E de repente o céu cai...

Numa frase apenas, num conjunto ordenado de simples palavras, King consegue levar os leitores menos desligados do livro às lágrimas. É imposível descrever a emoção de perda e ausência que permeia as últimas cento e cinquenta páginas do livro. Lavados em lágrimas, herói e leitor têm ao mesmo tempo de lutar contra o segredo sinistro de Sara Laughs. O terrível segredo que se esconde em Bag of Bones. O segredo que se esconde em mais uma obra-prima saída da mente de Stephen King e que ensombrará por muitos anos os corações dos leitores que se atreverem a pegar neste livro. De certeza que, no final, darão o tempo por bem investido.

 

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Artigo originalmente publicado em Maio de 2000, no 3º número do Paradoxo - Revista de Ficção Científica & Fantástico, uma publicação da Simetria.

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Preço: 750$00 (desconto para assinaturas)

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Para adquirir o Paradoxo, contacte a Simetria, a Associação Portuguesa de FC&F.


 

Última actualização: 17-09-2001

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