Estações
Diferentes - Stephen King
por Desidério Murcho
Stephen KING. Estações Diferentes. Trad.: João Brito. Lisboa, Círculo de
Leitores, 199?. [1ª edição em língua inglesa: 1982]. 453 pp.. ISBN
972-42-2137-7.
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O
Círculo de Leitores e a Temas & Debates têm vindo a publicar vários títulos
de Stephen King, conhecido autor de livros de grande circulação, muitos dos
quais adaptados ao cinema. Nos meios "intelectuais", Stephen King é
liminarmente afastado como um exemplo da literatura tipo pastilha elástica que
os americanos inventaram no século que agora termina. Além disso, trata-se de
um autor que cultiva um género menor: o terror. Duas razões de peso para uma
pessoa bem-pensante não ler Stephen King. Mas, como acontece muitas vezes com
juízos apressados e com ideias feitas, Stephen King merece bem ser lido.
Claro
que avancei para a leitura desta obra com todas as desconfianças — e acho que
só me decidi realmente a lê-la porque um dos seus 4 contos foi levado ao
cinema, dando origem a um dos melhores filmes que já me foi dado ver:
"Conta Comigo", de Rob Robson. Para minha surpresa, King é muito
melhor do que se poderia pensar — apesar de estes 4 contos serem atípicos na
obra do escritor, uma vez que não se tratam de contos de terror. King domina o
tempo e o espaço com mestria, mas é sobretudo na densidade dramática das
personagens e no puro prazer de contar histórias que o seu talento é mais notório.
Um dos aspectos surpreendentes de King é a sua criatividade; praticamente cada
personagem secundário, cada pequeno acontecimento, são descritos com
vivacidade e com tantos pormenores que é espantoso como nem ele nem nós
perdemos o fio à meada. King é um grande contador de histórias, e este livro
oferece ao leitor o prazer primitivo de ler uma história sem rendilhados literários
desnecessários, histórias cujo valor reside em si mesmas e não no modo mais
ou menos artificioso ou "literário" como são contadas. Ler King é
ler uma história. Uma boa história.
O
volume apresenta um conto por cada estação do ano. O Outono intitula-se
"O Corpo" e tem como mote "A Perda da Inocência". Foi este
conto que deu origem ao admirável filme de Rob Robson de 1986. Neste conto
descreve-se de forma extraordinária 2 dias da vida de 4 pré-adolescentes que,
no Maine, América, no fim das férias de Verão, descobrem o corpo de um rapaz
da idade deles que foi colhido por um combóio. Mas isto é apenas o que está
à superfície. O que está realmente em causa é o que é ter 12 anos e ter
amigos, é a cumplicidade, a distância e a proximidade — e, ao mesmo tempo, a
coragem, a vontade de vencer e o medo de fracassar.
O conto dedicado ao Inverno é
talvez o mais "literário" mas também o que mais se aproxima do género
do terror. Tem como mote um clube de contadores de histórias e chama-se "A
Técnica de Respiração". O título refere-se à técnica de respiração
para parturientes, para as ajudar a dar à luz. Todavia, antes de chegarmos à
história principal, vamos descobrindo a pouco e pouco o mistério de um
estranho clube de contadores de histórias. O ambiente é tranquilo mas
ligeiramente inquietante. A história principal apresenta-nos então o caso de
uma mãe solteira corajosa, que luta até ao fim contra os preconceitos de uma
América dos anos 50, quando ser mãe solteira era ainda um enorme estigma
social.
O
conto dedicado à Primavera tem como mote "A Esperança é Eterna" e
foi adaptado ao cinema em 1994, com o título "Os Condenados de Shawshank"
e a inesquecível interpretação de Morgan Freeman. Trata-se da história de um
homem, Andy Dufresne, injustamente condenado a prisão perpétua pelo assassínio
da mulher e do seu amante, apesar de Andy não ter realmente feito tal coisa.
Todo o conto se desenrola no interior da prisão, mas centra-se na personalidade
extraordinária de Andy — personalidade que a pouco e pouco nos vai sendo
revelada, até a sua verdadeira dimensão se tornar evidente já perto do fim da
narrativa. Num certo sentido trata-se de uma variação do tema clássico já
tratado por Alexandre Dumas no seu "O Conde de Monte Cristo", mas
agora concebido como um hino contemporâneo à esperança e à vontade de
vencer.
Finalmente,
o conto dedicado ao Verão tem como mote "A Morte Espreita" e
intitula-se "O Aluno Dotado". Este conto foi também adaptado ao
cinema em 1998, dando origem ao filme "Sob Chantagem". Este é o conto
mais sinistro de todos, apesar de não ser uma história de terror. Trata-se da
história de um adolescente, Todd Bowden, que descobre que um idoso que habita
perto de si e que dá pelo nome de Denker é um nazi fugido. Em vez de o
denunciar, Todd resolve fazer chantagem com o velho nazi, pois tem uma
curiosidade mórbida em conhecer as suas histórias do horror dos campos de
concentração — e Denker esteve durante anos à frente de um desses campos de
extermínio. A pouco e pouco a personalidade de psicopata de Todd vai-se
revelando, e King consegue descrever com mestria a mentalidade e as emoções de
um psicopata, assim como a personalidade mais fria e experiente de um velho nazi
fugido. A história acaba por se transformar numa macabra comédia de enganos,
na qual Denker e Todd se digladiam. O que mais me impressionou neste conto foi a
capacidade de King para nos fazer entrar a pouco e pouco na mente de um
psicopata.
A
tradução portuguesa é boa. E não foi tarefa fácil, pois King escreve de
modo muito coloquial — sobretudo no conto "O Corpo", onde dá conta
do modo de falar dos pré-adolescentes americanos em 1960. Esta é, pois, uma
obra de leitura acessível mas enriquecedora — provavelmente um bom incentivo
à leitura para os nossos jovens, pois os códigos cinematográficos e
americanos são imediatamente compreendidos pelos adolescentes portugueses de
hoje.