Stephen
KING. Insónia. Trad.: Manuel Cordeiro. Lisboa, Temas e
Debates, 1999. [1ª edição em língua inglesa: 1994]. 745 pp.. ISBN
972-759-154-X. 2850$00.
Ralph Roberts tem um problema: ele
não tem dormido muito bem ultimamente. Na verdade, ele quase não tem dormido. A
cada manhã o relógio na sua mesa de cabeceira saúda-o com uma mensagem cada vez
pior: 3:15... 3:02... 2:45... 2:15. Os livros técnicos chamam-lhe
“despertar prematuro” mas Ralph, que está agora a aprender a ser viúvo,
chama-lhe uma temporada no Inferno.
Mas é pior que isso. Ele começou a
notar que coisas estranhas estão a acontecer à sua volta, experimentando
estranhos fenómenos visuais que não acredita serem apenas alucinações. Ele vê o
seu simpático vizinho espancar a mulher quase até á morte enquanto grita
loucuras sem sentido sobre os “centuriões” e o “Rei Vermelho”. Enquanto espera
pela manhã, sentado junto à sua varanda, Ralph começa a ver pequenos médicos
carecas a entrar no lar de idosos moribundos e a desconfiar de quem eles
são na verdade.
O Bem e o Mal estão prestes a
confrontar-se num combate que ultrapassa a fronteira da realidade. Ralph
Roberts, os seus amigos e todos aqueles com quem se cruza vão estar na fila da
frente para assistir. Ralph Roberts não vai voltar a dormir. E se o leitor
insistir em ler o livro até ao fim, poderá ter o mesmo problema.
Stephen King escolheu a cidade de
Derry para uma das suas mais complexas e fantásticas histórias. Os seus leitores
habituais já a conhecem de outros livros, tais como It ou o recentíssimo
Dreamcatcher, e eles sabem que existe uma veia maligna a correr naquela cidade. A morte,
natural e não só, tem sido uma constante ao longo dos tempos.
Nesta história, Stephen King explora
a vida da terceira idade, com um conjunto de personagens que, gozando agora os seus últimos dias de reforma, se vêm transformados em peões num jogo
de xadrez entre forças que ultrapassam a sua compreensão.
Tudo começa quando Ralph Roberts,
recentemente enviuvado, começa a ter problemas em dormir. E à medida que os
problemas se agravam e a sua fadiga aumenta, Ralph começa a ver coisas que
noutra situação o levariam ao psiquiatra mais próximo. Ele começa a ver auras em
torno de todos os seres vivos, e, por entre as auras, entidades que se movem
entre os vivos sem que estes as percebam.
Enquanto isso, a convocação de um
comício a favor da despenalização aborto começa a gerar atritos entre os
habitantes de Derry, levando a espancamentos, tentativas de homicídio e
infanticídio. O próprio Ralph é vitima de uma dessas tentativas, por causa das suas
crenças liberais.
É então que ele descobre que as suas
insónias poderão não ser uma mera coincidência, e que todos os acontecimentos
poderão estar relacionados. Mais do que isso, ele apercebe-se que as entidades
que se deslocam invisíveis por entre os habitantes de Derry possuem o poder da
vida e da morte. Quando as confronta, Ralph apercebe-se de que nem tudo é o que
parece, e que o comício a favor da despenalização do aborto vai ser o palco de um
confronto entre o Bem e o Mal que vai ter implicações no destino de diversos
mundos e que ele próprio terá um papel fundamental no desenlace desse confronto.
Insónia (Insomnia, no
original) começa num ritmo lento, de
modo a melhor enquadrar o leitor, tipicamente jovem ou de meia-idade, na vida da
comunidade de idosos. Com o despoletar quase simultâneo de diversos acontecimentos,
a história torna-se assustadora e macabra. Algumas das situações, não elas em si
mas aquilo que implicam, farão o leitor parar de ler por alguns momentos para
poder respirar fundo.
Os períodos mais mortos, onde as
reflexões interiores das personagens sobre os seus sentimentos e emoções tomam
conta da história, são fáceis de ultrapassar e contribuem para um maior
entendimento das motivações interiores de cada uma delas, enriquecendo a
história.
Na terceira e última parte do livro, o ritmo
dos acontecimentos torna-se alucinante, e a sua dimensão, cataclísmica. A corrida contra
o tempo para salvar a vida de homens que ainda não nasceram, num mundo que não o
nosso, por pessoas que nunca conhecerão, leva o leitor a sentir que está ao lado
das personagens, a sentir o seu medo, a sua determinação e a necessidade de que o
Bem triunfe.
Neste livro, King regressa ao tema da
terceira idade, um dos seus favoritos, e explora também um problema cada vez
mais comum: a insónia. Como insone habitual, Stephen King consegue descrever o
desespero interior motivado pelo desejo frustrado de dormir uma boa noite de
sono, assim como as consequências nefastas das insónias no organismo e na vida
de quem padece deste mal. O autor deste artigo, partilhando do mesmo problema há
dois anos (Ed: Quem te manda ler livros assim?), não se podia identificar
mais com o sofrimento de Ralph Roberts, apesar de ainda não estar a experimentar
os tais "estranhos fenómenos visuais".
Os leitores habituais de Stephen King
encontrarão referências a outras histórias do autor, inclusive a resposta à
questão: “Porque morreu o jovem Gage Creed em Pet Sematary?” Descobrirão, logo
nas primeiras páginas, que a história de Insónia, ainda que possa ser lida
isoladamente sem que se perca qualquer elemento, também se encontra intimamente
ligada à saga da “Dark Tower”, uma história fantástica passada numa realidade
paralela, iniciada por Stephen King há vinte anos, e que já se estendeu por
quatro romances (com mais três no prelo).
Os leitores irão certamente
apaixonar-se por (ou odiar) personagens tão bem criadas que poderiam ser o seu
vizinho reformado da porta do lado. Irão descobrir que a coragem e o amor não
escolhem idades e, por se tratar de uma história de Stephen King, não deixarão de
derramar uma lágrima na ultima página quando se despedirem de Ralph Roberts (nos
diversos sentidos da palavra).
Stephen King comentou recentemente
que Insónia foi um romance difícil de escrever, pois a história, ao contrário do que lhe é
habitual, teve de ser estruturada e planeada com antecedência. Quem ganhou com o
trabalho extra do autor foram os seus leitores, que beneficiam assim de uma
história tão complexa e ao mesmo tempo tão simples, sendo-lhes com certeza difícil perceber como pôde
ser imaginada.
A tradução de Insónia para Português,
e a sua posterior publicação pela Temas e Debates, está primorosa. Os
leitores não terão qualquer dificuldade em encontrar o livro em qualquer
livraria de qualidade.
Insónia é, com certeza, um romance que vai
maravilhar os leitores habituais do género e do autor, mas que irá também captar o
leitor ocasional que procura apenas uma boa história para ir lendo todos os
dias. No entanto, aqui fica o aviso: a leitura deste livro antes do deitar é seriamente desencorajada.

Ricardo Rebelo nasceu em Angola em 1977 e instalou-se definitivamente em
Portugal no ano de 1981. Viveu um ano na vila de Tabuaço e, em 1982, mudou-se para
Gondomar (distrito do Porto), onde ainda reside. Terminou a sua
licenciatura em Economia na Universidade Portucalense em 2001, e encontra-se
neste momento a trabalhar numa importante empresa de consultadoria em Lisboa.
Desde
o dia em que viu o filme "Shinning", em 1986, que se interessou pelos
temas do fantástico e do terror, sendo um leitor ávido das obras de Stephen
King e James Herbert. Nos poucos tempos livres que tem, escreve alguns contos e
novelas encontrando-se a preparar uma novela com o título provisório de "Samhein"
com a qual pretende concorrer ao Prémio de Ficção Literária Fnac/Teorema numa
das suas próximas edições.
Outros dos seus interesses incluem o estudo dos crimes de Jack, o Estripador,
bem como a astronomia amadora.
O
autor ganhou recentemente o segundo prémio no
1º Concurso Literário de Contos de Terror, promovido pelo Turno da Noite.
Ricardo
Rebelo pelo ser contactado pelo seguinte e-mail: ricardorebelo@ip.pt

Texto:
Copyright © 2001 Ricardo Rebelo
Adaptação para
HTML por Ricardo
Madeira