(Tradução e Adaptação de Ricardo Madeira)
Querem escrever horror? Muitas pessoas querem. O colectivo da indústria
editorial popular pode ter momentaneamente virado as costas ao género, mas o
mercado das pequenas editoras está a prosperar nos EUA, já para não mencionar
o número crescente fanzines de horror na Internet. Infelizmente, muitas das
histórias publicadas nestes mercados não são muito inspiradoras (para o dizer
de uma forma amável) e são simplesmente más (para o dizer de forma honesta).
Querem que o vosso trabalho sobressaia do resto da alcateia licantrópica?
Querem começar a vender obras para mercados maiores e mais prestigiosos? Querem
que as vossas histórias de horror sejam tão boas que as pessoas corram sem
fôlego ao longo da vossa prosa, e mal sejam capazes de sussurrar um exausto,
"Fogo, isto é que é," quando terminam leitura?
Não é fácil. Mas eu tenho três dicas para vos oferecer que aumentarão as
vossas hipóteses de se juntar ao panteão escuro de escritores de horror de
sucesso.
1. Cuidado com os clichés.
Leiam amplamente, tanto dentro como fora do género de horror, para que
possam reconhecer enredos já usados até à morte (e para além dela). Ficarão
a saber fazer melhor do que escrever histórias que terminam em "E era tudo
um sonho," ou "E então ela apercebeu-se, enquanto o seu amante
enterrava as presas no pescoço dela, de que ele... era... um... VAMPIRO!"
Quando eu era adolescente, escrevi uma história de horror com o título
embaraçoso de "Natal Assustador". Nela, um jovem delinquente
atormenta e mata um homem idoso cujo fantasma volta, buscando uma vingança
Natalícia. Pelo menos tive o bom senso de nunca enviar este pedaço de porcaria
a ninguém. Histórias de vingança são um dos maiores clichés da ficção de
horror e, para além disso, não existe tensão nelas.Os leitores sabem sempre
exactamente como elas vão terminar.
Mesmo assim, podem usar os clichés para vosso proveito. Na minha história,
"Blackwater Dreams", publicada na antologia Bruce Coville's Book of
Nightmares 2, voltei a tentar criar outra história de vingança
fantasmagórica. Só que, desta vez, agarrei no cliché e retorci-o. O personagem principal, um jovem rapaz que se culpa pelo afogamento
de um amigo, é visitado nos seus sonhos pelo fantasma do afogado. O rapaz teme que o
espírito tenha vindo em busca de vingança, mas o amigo não está zangado -
ele está só. No final da história, o meu protagonista tem que fazer uma
escolha terrível: deixar o amigo entregue à sua solidão, ou o unir-se a ele,
na sua húmida vida após a morte.
Na minha história "Alacrity's Spectatorium", voltei a trocar as
voltas a outro cliché. Usei a noção de que vampiros não têm um reflexo e
criei um espelho escuro que só mostra os reflexos de vampiros. Que preço
pagariam os vampiros por um breve vislumbre seu nesse espelho sem igual? Mais, o
que significaria para eles um tal vislumbre?
Em vez de terminar com um cliché, por que não começar com um? Comecem com
"Foi tudo um sonho," e construam a vossa história a partir daí. Por
que não começar com um homem que descobre que a amante dele é uma vampira e
descrever o que acontece depois disso? Ou então dêem a volta ao cliché. E se
um vampiro descobrisse que o amante dele não era outro nosferatu mas sim
(tremor!) um humano?
E tentem evitar o mais usado enredo na história da ficção de horror, que o
autor o Gary A. Braunbeck (Time Was, Things Left Behind) descreve como uma
história na qual o personagem principal só existe "para ser sorvido pelo
monstro". Histórias nas quais os personagens são apenas adereços serem
comidos, sugados, estripados, rasgados, trucidados e transformados em geleia
pelo vosso "sorvedouro" monstruoso, seja ele um vampiro, um lobisomem ou
o omnipresente assassino-em-série. Estas histórias não são apenas
enfadonhas; elas são insultuosas para leitores que merecem melhor.
Provavelmente, o melhor modo de se evitarem clichés é aderir a um dos mais
antigos: escrevam sobre aquilo que sabem. Busquem na vossa experiência ideias
para histórias, escrevam sobre as coisas que vos excitam e perturbam, as
pessoas, os lugares e os eventos que tecem o tecido singular da vossa
existência, que tornam a vossa vida diferente de qualquer outra vivida antes.
Se fizerem isto, não poderão evitar serem originais.
2. Há uma diferença entre perturbar os leitores e simplesmente os enojar.
Demasiados novatos pensam que escrever horror é escrever descrições
detalhadas de estripamentos e de fluidos corporais a esguichar. Eles confundem o
uso de tais elementos com audácia artística e escrita de ponta. A verdade é
que, em vez disso, tais escritores são o equivalente literário da criança que
enfia o dedo dentro do nariz e tira cá para fora um grande macaco para poder
acenar com ele em frente aos rostos dos amigos.
O bom horror - como toda a ficção que verdadeiramente importa - pretende
afectar os leitores emocionalmente. Claro, a repulsa é uma reacção emocional,
mas é uma bastante simplista, com um efeito limitado nos leitores. Eles
terminam a vossa história sobre um preservativo mastigador de pénis, pensam, Puxa, isto é nojento, e imediatamente se esquecem de tudo. Vocês
falharam no objectivo de os tocar, de mexer com eles, excepto no menos profundo
dos níveis.
Não estou a dizer que devem evitar escrever sobre o escuro e o perturbador.
É disso que trata o horror, da silenciosa subtileza de uma sombra
semi-vislumbrada num dia que de outro modo seria de sol, até à revulsão
"na-cara-do-leitor" do sangue a pingar do metal reluzente de uma
lâmina de barbear. Mas se optarem por irem atrás do "gross-out",
como o Stephen King diz, ele tem que surgir naturalmente da própria história,
ser uma parte tão integrante ao conto que estão a contar que não pode ser
removido sem que a história sofra com isso.
No romance de Gary A. Braunbeck "Some Touch Of Pity" (mais um
excelente exemplo de um escritor que pega num cliché - a história do lobisomem
- e lhe dá uma forma original), há um flashback que descreve a violação de
uma das personagens. Não só o aspecto físico do acontecimento, mas também as
emoções que o personagem sente enquanto a violação ocorre. A cena é
absolutamente brutal, mas também é completamente necessária à história. Se
a cena fosse menos marcante, ou pior, removida, a história seria muito menos
potente em termos emocionais.
Na minha história, "Keeping It Together",
publicada na primeira antologia da SFF
Net, intitulada Between The Darkness And The Fire, escrevo sobre um
homem gay que leva um estilo de vida heterossexual numa casa e com uma família
que ele próprio criou a partir do seu desejo desesperado de ser aquilo que ele
acha que é "ser normal". Mas é uma ilusão que não pode ser
sustentada, e à medida que a história progride, a casa, a esposa, a sua filha
jovem, tudo se começa a deteriorar em seu redor. Numa cena, o personagem faz
amor com a sua esposa por causa de um sentido de dever conjugal e, uma vez que a
dissolução dela já se encontra adiantada nesta altura, o acto sexual. . .
danifica-a. Criei esta cena não somente para fazer os leitores dizerem "Ooooh, que nojo!" mas para dramatizar ainda mais o impacto de uma negação
tão profunda tanto no meu personagem principal como nos que o rodeiam.
Lembrem-se que elementos extremos, como qualquer outra coisa em ficção,
são só ferramentas para vos ajudarem a contar vossas histórias da melhor
maneira que vocês conseguem. Mas, como qualquer ferramenta poderosa, eles devem
ser usados espaçada e cautelosamente, e sempre com uma boa razão.
3. Dêem-nos personagens com quem nos preocupemos.
Deixem-me dizer, antes de mais, que este conselho não significa que tenhamos
de gostar dos vossos personagens. Significa os vossos personagens devem ser tão
desenvolvidos e interessantes que nos façam querer ler a vossa história para
descobrir o que lhes acontece. Há personagens - Capitão Ahab, Sherlock Holmes,
Hannibal Lector - que nem sempre são agradáveis (e que às vezes são
completamente desprezíveis) mas que são tão singulares, tão completamente
realizados, que não podem deixar de nos fascinar. É de personagens
carismáticos que a ficção memorável trata em todo o lado, qualquer que seja
o meio onde o autor é publicado.
Na minha história, "Seeker", que apareceu na antologia da White
Wolf Dark Tyrants, escrevo sobre um cruzado desiludido que perdeu a sua fé em
Deus e foi procurar um ninho de vampiros para provar a si mesmo que há algum
tipo de faceta espiritual na existência, mesmo se essa faceta é malévola. O
enredo ocorre em dois planos distintos. O primeiro é a narrativa do cruzado que
penetra na floresta onde os vampiros vivem, sendo atacado por eles, e lidando
finalmente com o seu líder (que eu tornei não apenas um vampiro mas um vampiro
que se fundiu com o próprio bosque). O segundo plano é detalhado em vários
flashbacks, sendo constituído pelos eventos que causaram a perda da fé do
cruzado e o deixaram tão desesperado por encontrar um sinal - qualquer sinal -
de que há Algo Mais na vida.
Se eu tiver feito o meu trabalho bem, não só os leitores se interessarão
pela acção da história, mas também pelo próprio cruzado, de forma a que,
quando história atinge o seu clímax e a busca do personagem é satisfeita de
um modo que ele - e, esperançosamente, os leitores - nunca imaginara (não, ele
não se torna um vampiro também; lembrem-se do que eu disse antes, sobre evitar
clichés? Tento fazer o que eu próprio digo), não só existe uma recompensa
emocional, como também os leitores, espera-se, deixarão a história pensando
um pouco na sua própria espiritualidade.
Há muito mais para dizer sobre escrever bom horror, mas se pegarem nos três
conselhos que vos dei e os seguirem à risca, criarão histórias que não só
serão algo mais do que os contos genéricos que por aí há de zumbis
mastigadores de carne e assassinos-em-série sedentos de sangue, vocês criarão
ficção que vale a pena ler - que vale a pena recordar.

Tim Waggoner escreveu a sua primeira história aos cinco anos de idade, quando
criou uma versão de banda desenhada de King Kong vs Godzilla num bloco de
papel. No entanto, tiveram de passar mais alguns anos até que ele começasse a
vender histórias profissionalmente. No total, Tim tem publicadas mais de
cinquenta histórias de fantasia e horror, assim como centenas de artigos não
ficção. Além de escrever ficção, Tim trabalhou como editor e repórter de
jornal. Ele ensina escritura criativa no Sinclair Community College em Dayton,
Ohio. Cindy, a sua esposa maravilhosa, é psicóloga (uma profissão útil para
os cônjuges de escritores). O casal tem duas filhas espertas e bonitas, Devon
e Leigh. Tim espera continuar a escrever e ensinar até cair morto; depois quer
ser empalhado e colocado em frente ao terminal do seu computador.
Visitem a sua página pessoal: http://www.sff.net/people/Tim.Waggoner

Copyright © Tim
Waggoner
Tradução:
Copyright © 2000 Ricardo
Madeira