(Tradução de Ricardo Madeira)
Quando a idade se abateu sobre o mundo, e a maravilha abandonou as mentes dos
homens; quando cidades cinzentas ergueram na direcção de céus enfumarados
altas torres austeras e feias, na sombra das quais ninguém pode sonhar com o
sol ou com os prados florescentes da Primavera; quando vendo a Terra despida do
seu manto de beleza, os poetas não mais cantavam excepto sobre fantasmas
retorcidos vistos com olhos remelosos e que olhavam para dentro; quando estas
coisas eram acontecidas, e as esperanças infantis para sempre se tinham ido,
houve um homem que viajou para fora da vida numa busca ao interior dos espaços
para onde os sonhos do mundo haviam fugido.
Do nome e residência deste homem apenas pouco ficou escrito, pois pertenciam
só ao mundo despertado; contudo diz-se que ambos eram obscuros. Basta saber que
o homem habitava uma cidade de paredes altas onde o estéril crepúsculo
reinava, e que ele labutava todo o dia entre a sombra e o tumulto, regressando
à noite a casa para um quarto cuja única janela se abria não para campos e
arvoredos mas para um pátio escuro que outras janelas fitavam em baço
desespero. Daquele caixilho apenas se podiam ver paredes e janelas, excepto
quando às vezes uma pessoa se inclinava bastante para fora e perscrutava no
alto as pequenas estrelas que passavam. E porque meras paredes e janelas não
demoram a conduzir à loucura um homem que sonha e lê muito, o morador
naquele quarto costumava noite após noite inclinar-se para fora e perscrutar as
alturas para vislumbrar algum fragmento de coisas para além do mundo desperto e
do cinzento das cidades altas. Anos depois ele começara a chamar as lentas
estrelas navegantes pelos nomes, e a segui-las na sua mente quando elas
pesarosamente deslizavam para fora do alcance da vista; até que por fim a sua
visão acabou por se abrir a muitas vistas secretas de cuja existência nenhum
olho comum suspeitara. E uma noite um abismo poderoso foi atravessado, e os
céus assombrados por sonhos dilataram-se para baixo até à janela do solitário
observador para se fundirem com o ar viciado do quarto e fazer do homem uma
parte da sua fabulosa maravilha.
Chegaram àquele quarto selvagens fluxos de meia-noite violeta que brilhavam
com pó de ouro; vórtices de pó e fogo, rodopiando para fora dos últimos
espaços e pesados com os perfumes de além-mundos. Oceanos opiáceos
verteram-se lá, iluminados por sóis que o olho nunca poderá contemplar e
tendo nos seus remoinhos de água estranhos golfinhos e ninfas-do-mar de
profundidades irrecordáveis. O infinito silencioso girou em torno do
sonhador e carregou-o dali sem sequer tocar o corpo que se inclinava com rigidez
da solitária janela; e durante dias não tomados em conta pelos calendários
dos homens as marés de esferas distantes transportaram-no com gentileza para o
juntarem aos sonhos pelos quais ansiava; os sonhos que os homens perderam. E no
decurso de muitos ciclos as marés deixavam-no ternamente a dormir numa costa de
verde amanhecer, uma verde costa fragrante com flores-de-lótus e adornada por cúmulos
vermelhos...

Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) é
um dos escritores americanos mais influentes e bem conhecidos no género do
Horror. A obra acima apresentada, escrita em Junho de 1922, é um dos fragmentos
incompletos que o autor nos deixou; é um relato rudimentar, baseado num dos
seus sonhos,
que ele pretendia expandir mais tarde num trabalho maior. Na verdade, este
fragmento faria parte de um romance que Lovecraft pretendia escrever, intitulado
Azathoth, no qual o personagem principal viajaria até ao centro da
própria criação em busca do Caos Nuclear, Azathoth. Especula-se que o
conceito deste romance terá evoluído, para resultar, anos mais tarde, na sua
novela The Dream-Quest For Unknown Kaddath (incluída na antologia
Lovecraftiana OS DEMÓNIOS DE RANDOLPH CARTER, publicada em Portugal pela
Editorial Estampa).
Para mais informações sobre H. P. Lovecraft, visitem o
seguinte site: http://www.hplovecraft.com

Tradução:
Copyright © 2000 Ricardo
Madeira