
Do Editor:
Este
é um conto que nos chega do Brasil, do meu velho amigo Carlos Orsi Martinho.
Foi escrito originalmente em Inglês, e depois traduzido e adaptado para
Português pelo próprio autor. Este é, sem qualquer dúvida, um caso em que os
leitores anglófonos ficaram a perder, pois a linguagem desta versão portuguesa
é simplesmente impagável, fazendo um uso excelentemente apropriado da gíria e
calão brasileiros. Se fosse de outra maneira, teria provavelmente optado por
"aportuguesar" este texto o mais possível, mas a forma sob a qual ele
nos é apresentado é simplesmente impossível de melhorar. E muito fácil de
estragar.
Por
isso continuem em frente e leiam a versão original, em Português do Brasil. É
sem dúvida um dos melhores contos de Horror que poderão encontrar na
língua de Camões. Aviso desde já que as imagens são bastante fortes, mas
não são gratuitas. Carlos é, talvez, o escritor de Língua Portuguesa mais
experiente no campo do Horror. Confiem nele, e deixem-no ser o vosso guia nesta
viagem aos mais profundos horrores.
Quando
o vosso estômago começar a protestar, repitam para vocês mesmos que isto é
apenas um conto, são apenas palavras num papel.
Apenas
um conto.
Palavras
num papel.
E
no entanto...

1. A Experiência
Acho
que li em algum lugar que as moscas vivem só por uma semana. Quer dizer, se uma
mosca escapar de todo o resto - línguas de sapo, insecticida, porrada, chuva
pesada - mesmo com toda essa sorte, a merdinha morre de velhice uma semana
depois de ter nascido. Pra ser sincero, nem sei se o que li é verdade. Nem sei
se entendi o negócio direito (é uma semana desde que o bicho sai do ovo ou a
partir da idade adulta? De quando aparecem as asas?). Mas…
Bem,
o fato é que tenho uma experiência rolando. Desenhei linhas orgânicas (
"trilhas", como as chamo) nas paredes deste quarto.
"Orgânicas"? Que porra é essa? É o seguinte: uso principalmente
mel, fezes (as minhas; e só fezes. Urina, nunca. Isso é importante: urina,
nunca) e sangue (do meu, também). Consigo o sangue mordendo os dedos. Não a
polpa carnuda, mas aquela parte mais escura, bem onde a unha entra debaixo da
pele. Sangra que é uma beleza. Um dedo a paleta, o outro, o pincel. Perfeito!
Então,
pego fezes e mel e sangue e desenho trilhas nas paredes. Por toda parte. E as
moscas entram por umas rachaduras no forro e começam andar - sim, a andar! Numa
fila bonitinha - nas trilhas. Nas paredes. Elas andam. E comem. Elas trepam,
põem ovos, nascem.
Nas
trilhas. Nas paredes.
Eu
as observo. Estudo. Às vezes mato uma ou outra, às vezes acabo com uma
caralhada de uma vez só, usando minha língua, veneno ou uma navalha. Mas as
outras, as sobreviventes, elas simplesmente não ligam. Não sabem o que eu
faço. Elas nem se tocam, quer dizer, elas não me notam. Não sabem que estou
aqui. Eu as alimento, eu as mato, às unidades ou às centenas, e elas nem sabem
que existo.
Eu,
que às vezes penso em mim mesmo como Belzebu, Baal-Zabub, demónio, Duque do
Inferno, Senhor das Moscas. Mas as moscas nunca ouviram falar do Inferno. Ou
será que elas chegam a imaginar um lugar assim?
Difícil
dizer.
Eu
as estudo, as que mato, atentamente. Enquanto estou matando, se é que você me
entende. Será que as merdinhas sabem que estão morrendo, ou como estão
morrendo? Faz diferença pra elas se é com navalha, veneno ou meus pobres
dentes podres? Elas distinguem um fim do outro?
Elas
têm olhos escuros, opacos e não piscam. Então, não dá pra dizer. Mas
continuo olhando. Tem vezes em que uma das moscas deixa as trilhas e vem até
mim. Pousa em meus olhos e bebe lágrima. Então, se eu permitir, a mosca volta
pra parede. Às vezes eu deixo. Às vezes, eu mato. Nenhum padrão. Nenhuma
razão. Mero capricho.
Será
que as que bebem e vivem aprendem alguma coisa? Compreendem melhor o mundo?
Passam por um êxtase místico?
Quem
pode dizer?
Sou
Baal-Zabub, o Grande, mui Grande e Antigo, e estou certo de que as merdinhas
não são capazes de entender o que sou eu.
E,
sabe o que é mais gozado? Mesmo estudando as moscas como eu faço, ainda não
dá pra dizer se vivem só uma semana. Elas são todas tão parecidas! Esta,
esta aqui, que acaba de cair das trilhas: terá saído do ovo há sete dias?
Catorze? Vinte e um?
As
trilhas estão tão cheias, as fileiras tão apertadas, que não sei dizer.
2. O Artista
As
trilhas nas paredes são meu maior trabalho, minha obra-prima, opus magna. Pena
que ninguém mais vai vê-las, mas as verdadeiras obras de arte são assim:
feitas para iluminar, subjugar o próprio artista, não o público imundo. Se o
criador consegue entender-se melhor, olhar mais fundo dentro de si mesmo
enquanto realiza o trabalho, isso sim é arte. Todo o resto é mediocridade,
showbiz.
No
começo, eu não sabia disso. Eu criava para os outros, para o dinheiro dos
outros.
Ei,
talvez você tenha ouvido falar de minhas primeiras obras. As pessoas me
chamavam (a sério, eu é que me chamava) de um Criador Pictorgânico. Que merda
é essa? Bom, como quase todos os verdadeiros artistas da história antes de
mim, eu usava imagens do corpo humano como matéria-prima - mas não o modelo
nu, o rostinho bonito (ou feio), o braço musculoso, a mão esticada em busca do
toque de Deus. Nada disso. Eu usava imagens processadas por equipamento médico,
imagens lindas, em explosivas cores primárias, dos interstícios do corpo
humano. Figuras produzidas por computador, radiação, sonar, até mesmo luz
ordinária. Eu faria a justaposição da imagem surrealista do ultra-som de um
embrião a sua foto, as vértebras ainda visíveis brilhando através da pele,
da carne translúcida (e transónica). Eu faria a justaposição, veja bem,
dessas imagens à da tomografia computorizada do cérebro de um adolescente a
poucos instantes de seu primeiro orgasmo, uma imagem que é como uma couve-flor
atómica, quebrada, explodida. E, ao lado disso tudo, uma simples chapa de
raios-X de um fémur quebrado, ou órbita vazia de um crânio sorridente, sim
por que não, por que, numa situação dessas, evitar o cliché?
Assim
era o trabalho. Às vezes eu usava meu próprio equipamento para tratar imagens,
realçar um detalhe, mudar uma cor, dar nova dimensão a uma figura que, de
outra forma, seria sem sabor, morta. Eu iria descobrir padrões fractais em
fotos Kirlianas de um pedaço de carne podre, e eu iria destacar isso, reforçar
a auréola, aprofundar a escuridão central. Às vezes eu usaria os ícones da
deformidade, às vezes, os da beleza. Voltemos ao embrião, à colagem de foto e
ultra-som: eu poderia usar essas imagens para encher seus olhos de lágrimas,
lágrimas de pena, de deleite ou de terror - bastaria mudar algumas cores ou
poucas, realmente muito poucas linhas.
Esta
era a Arte Pictorgânica. E eu era o único a praticá-la. Porque só eu tinha a
combinação necessária de coragem e talento. E eu era o único com o número
certo de amigos no número certo de instituições médicas. E foram elas,
minhas amizades no meio médico, que me trouxeram ao inevitável, ao tema e
motivo que iria mudar minha existência; que me puseram neste quarto miserável
desta casa enorme, no trabalho de minha vida, no papel de Baal-Zabub.
E
esse tema era, claro, a doença.
Doença...
Veja,
eu usava imagens de diagnóstico, quase sempre. As pessoas passam por uma
cacetada de exames hoje em dia, os médicos pedem exames pra qualquer bosta,
até unha quebrada. E muito poucas dessas bostas acabam se revelando algo de
sério. Menos ainda cabem num daqueles nomes solenes, cheios de sons gregos.
Então, boa parte de meu material vinha de gente perfeitamente saudável. Eu
usaria essas figuras para compor quase toda a obra, e depois jogaria algo para
desequilibrar - um osso quebrado, uma imagem dos mortos. Tinha mercado pra isso;
construí o casarão com o dinheiro dessas obras.
De
repente, resolvi fazer da doença o aspecto principal, o foco de cada novo
trabalho. Ir em busca do trágico, do patético, do inescrutável. Minhas
pinturas - às vezes eu chamo o que fazia de "pintura", porque detesto
a palavra "colagem"-começaram a ter nomes bem curtos e substantivos: Fractura.
Pneumonia. Parkinson. Lepra.
Enxerguei
a Verdade enquanto fazia pesquisa para o que deveria ter sido minha maior
realização. Algumas pessoas acharam que eu ia fazer Aids, mas não.
Sempre tive uma mente clássica. Pra mim, esse negócio de angústia sexual
pós-moderna é coisa de cuzão. Portanto, eu ia fazer Câncer.
"Pesquisa",
no caso, significava captar imagens de todo o mundo. Eu tinha amigos, como já
disse, e onde a amizade não era o bastante, eu tinha dinheiro. Bem. Ao começar
a reunir a iconografia, passei a ver...
Quem
sabe sou o único capaz de enxergar. Realmente ver a Coisa. Afinal, tenho um
olho treinado. Somando esse fato ao resto, de repente tudo parece tão
preordenado, como as trilhas de mel e fezes nas paredes...
Mas,
estou me adiantando. Desculpa.
O
negócio rolou assim:
Eu
estava usando o computador pra fazer a justaposição de imagens de tumores
bastante diferentes entre si, e de fontes bem diferentes, também. Havia
radiografias da África, tomgrafias de pósitron da Europa, montes de imagens de
computador experimentais dos States. Havia cânceres de pulmão da Itália e da
Croácia que pareciam chifres de bodes e bois, cânceres de fígado do Brasil,
da Austrália, e cancros de pele da Noruega e de Portugal que eram como aranhas
famintas, formiguinhas inocentes e escorpiões prontos pra dar o bote; havia
serpentes dormindo em seios da África. Nuvens de tempestade acumulavam-se no
interior dos cérebros de mulheres mexicanas e nos intestinos de alguns poucos
israelitas. Lindas flores brotavam de ossos árabes e pele venezuelana.
E
a questão é... a questão, a coisa fantástica - Dá pra ver? - é que todas
as imagens encaixam. Eu não estava criando nada novo com elas. Me limitava a
montar um quebra-cabeças preexistente.
Dá
pra entender? As coisas crescendo dentro de cada um daqueles pobres coitados
eram, na verdade, apenas partes de uma Coisa maior. Um padrão que só eu podia
ver. Um monstro, se você preferir.
Existe
um monstro crescendo dentro de nós, incubado em padrões de câncer e dor e de
morte. A Coisa transcende as dimensões - o, vamos chamar assim,
"dedo" dela cresce na Cidade do Cabo, a "unha" em Nova York,
algo que parece parte de uma tromba, em Montreal, o resto em Casablanca.
Ela
usa a gente. Não tenho dúvida de que nos alimenta, e alimenta-se de nós. Ela
cria os caminhos que percorremos. E, quando chega a hora, ela nos mata.
Está
nascendo de nós, tenho certeza. Desde o início dos tempos essa Monstruosidade
está vindo de nós, um órgão de cada vez, talvez uma célula a cada milénio.
E quando a tarefa estiver completa... Então, o quê?
3. Perspectiva
Então,
veja, eu criei esta obra-prima para ganhar perspectiva. Quer dizer - o que
podemos representar pra uma criatura assim? Quanto a Coisa é mais forte, mais
inteligente que nós? Como Ela pensa? Será que não somos como... moscas...
pra ela?
Agora,
você entende por que comecei a experiência? Porque quero conhecer a Coisa.
Saber como Ela sente. Como Ela é. E, mantendo as coisas nas devidas
proporções - se uma mosca puder vir a me perceber, a realmente me conhecer, a
se dar conta de que eu existo e sou o responsável pelos caminhos, pelas mortes,
se isso acontecer por um único momento, então talvez eu possa vir a conhecer a
Coisa Antiga, e a realmente percebê-La. Se uma mosca puder se comunicar comigo,
então é possível que eu me comunique com Ela.
E,
se uma mosca puder realmente me ver, então eu posso ver a Coisa Antiga. Se eu
puder me tornar real para a mosca, então a Coisa Antiga será real.
E
eu não estarei louco.

Carlos Orsi
Martinho é jornalista e, provavelmente, o maior e melhor autor de Língua
Portuguesa no género do Terror. Nasceu em Jundiaí, no interior do estado de
São Paulo, a 5 de Janeiro de 1971. Os seus primeiros contos foram publicados
entre 1986 e 1989, no Jornal de Jundiaí. O seu primeiro trabalho a ser
lançado profissionalmente apareceu no nº24 da revista brasileira Isac Asimov Magazine, em 1992. A sua primeira antologia de contos,
Medo, Mistério, Morte, foi publicado em 1996, pela Editora Didática Paulista, na
colecção Novos Caminhos. A segunda antologia, O Mal de Um Homem, apareceu em 2000,
pela Editora Ano-Luz, e inclui "A Engrenagem Vulgar", eleito melhor de
1999 pelos leitores da revista Quark. Muitos outros contos de Martinho têm também aparecido em
diversas antologias e fanzines, tanto nacionais como estrangeiros.
Martinho
recebeu um prémio Tapìraì (pelo seu conto O Planeta Vermelho, a
sua primeira incursão em territórios Lovecraftianos) e um prémio Nova (pelo
seu conto A Fábrica), um dos prémios mais prestigiantes da
Ficção Científica Brasileira.
Carlos
Orsi Martinho tem sido um dos responsáveis pela apresentação do universo de
H. P. Lovecraft à Ficção Fantástica Brasileira. Esta sua veia Lovecraftiana,
que desde sempre lhe tem servido de inspiração nunca o impeliu a fazer meras cópias
do trabalho original do Mestre HPL. Ao longo da sua carreira, Martinho sempre manteve o seu estilo e
originalidade próprios. A sua veia
Lovecraftiana continua lá - correndo adormecida mas potente, mesmo por baixo da
superfície dos seus mais recentes trabalho - mas o resto é puro Martinho; puro e inimitável Martinho, a
caminho de se tornar um dos verdadeiros mestres.
O Turno
da Noite deseja ao recém-casado casal Martinho um feliz matrimónio.
Esperemos que tenham gostado da sua lua-de-mel em Portugal, e que,
decididamente, não tenham aproveitado para ver as vistas e queiram
regressar!
Carlos Orsi Martinho pode ser contactado pelo seguinte e-mail: carlosom71@yahoo.com

Baal-Zabub: Copyright © 2000 Carlos Orsi Martinho
Adaptação para
HTML por Ricardo
Madeira