Civilizadamente
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Civilizadamente
por Carlos Orsi Martinho

 

Agora, pensa comigo, porra: um homem pode matar outro sem querer. Mas ninguém pára debaixo da placa de proibido estacionar por acidente. Me fala: quem tem mais desprezo pela lei? Pelo próximo? Pela merda da vida em sociedade?

Percebe?

Por isso eu digo, as leis estão todas erradas. A punição tem que casar com a filhadaputice do mané, não, cacete, com o que o mané fez. Um coitado esbarra na alavanca errada de um guindaste e – por exemplo – derruba uma viga em cima de um carro. O que acontece com ele? Cana. Pode até acabar morrendo numa grana mais ou menos, sei lá. Um outro conta uma mentira que fode com a vida de um colega de trabalho, e ninguém pode fazer nada com o filho da puta.

Crime, pra mim, é tudo que desrespeita o mané que tá parado do teu lado e não tem porra nenhuma a ver com as tuas merdas. Portanto, ser civilizado é não cagar nele. Ao menos, não de propósito.

O que nos traz ao Parasita. Depois de algum tempo vim a aprender o nome do lazarento. Mas, para mim, o filho da puta vai ser, sempre, “O Parasita”. E que a terra lhe seja leve.

Cretino.

Mas, onde eu estava...?

Certo: o Parasita.

Melhor começar falando um pouco sobre mim mesmo. Trabalho na equipe de segurança da Universidade Particular de Açaraí. Não do campus central, que fica do lado do jornal, não. Do campus avançado, pra lá de onde Judas perdeu as pregas.

Fiz curso na Academia de Polícia em São Paulo. Quase virei tira. Tenho porte de arma, sou dono, tudo legalizado, do berro que uso no trabalho. Além disso, guardo umas coisinhas embaixo da cama que fariam qualquer soldadinho mocorongo se cagar todo.

Bom, o importante, pra entender esta história, é que trabalho na segurança do campus avançado. Que fica longe pra caralho, quase no meio do caminho pra São Paulo. Meu turno termina às duas da manhã, e não tenho carro. Nem moto, falando nisso. Dinheiro pra táxi? Cê tá brincando, né, cara?

Por sorte, a própria Universidade tem um ônibus especial, fretado, que recolhe a rapa da madrugada. A partir da meia-noite, passa um a cada hora e meia: à uma e trinta, duas e trinta, três...

Deu pra sacar?

Eu saio às duas. No meu ponto, o latão passa faltando quinze pras três; sempre com um lugar só sobrando (é um ônibus tipo empresa de turismo, com aqueles bancos que se inclinam pra trás e sem espaço pra neguinho ir de pé). Então, depois de quarenta e cinco minutos esperando no ponto, no frio (e faz frio na merda do campus, acredite!), eu subo no latão, enfio a bunda no último assento disponível e volto pra cidade. Simples, ainda que não exatamente confortável, como costuma dizer o professor Pellegrini.

Mas o professor não tem bosta nenhuma a ver com esta história.

Simples, eu disse? É, era simples. Até aparecer o Parasita.

O tipo deu as caras numa madrugada de sábado, isto é, depois do expediente de sexta-feira. Eu tava lá, desde a porra das duas horas, no ponto, batendo os dentes de frio, quando, às duas e quarenta, o panaca aparece. Um sujeitinho de cabelo crespo, óculos, olhos miúdos e um dentinho torto que vi quando ele sorriu pra mim.

Sorriu, o filho da puta.

Então o ônibus chegou. E...

Não me leve a mal. Eu tava até que meio disposto a deixar a bichola subir e depois, quem sabe, andar até a garagem pra pegar o latão seguinte que, afinal, só devia passar por ali quinze pras quatro. Eu ia oferecer a vaga pra ele. Aí, se fosse mesmo um ser humano e não um parasita nojento, uma solitária de óculos, ele ofereceria a vez de volta pra mim, etc, etc. Simples. Civilizado.

Mas, foi o que aconteceu?

O cacete!

O lazarento simplesmente pulou na escadinha assim que a porta se abriu, deu um risinho calhorda (que eu vi), soltou uma grana pra “cervejinha” do motorista e lá se foi!

Nenhuma palavra. Merda nenhuma.

E nada, porra, nenhum milésimo, bostésimo, de educação.

Isso me deixou pistola. Tão pistola que quase não notei o tempo passar, até que o buzunga das três e quarenta e cinco encostou.

Prometi que se o lazarento fizesse isso de novo na segunda-feira, eu metia chumbo nas costas dele. Bem entre os ombros. Na espinha!

E ele fez, a bichinha esperta. Mas não atirei.

Bosta, porque eu não queria ser preso, é lógico. Em segundo lugar, porque resolvi dar um corretivo no rapaz. Quem sabe ele não aprendia a ter um pouco de educação?

Na terça-feira (madrugada de quarta) eu não só fui mais rápido na hora de pular na escadinha, como ainda usei uma pequena manobra – acho que o pessoal do caderno de esportes chamaria isso de “jogo de cotovelos” – e deixei o filho da puta estirado na calçada, tentando recuperar o fôlego. Imaginei o tamanho do hematoma que ele não teria no meio do peito, e não pude deixar de sorrir.

– Desce – disse o motorista, olhando feio pra mim.

– Como assim?

– Não tem educação, ô cara? Ficar batendo nos outros pra pegar ônibus? Desce que eu vou levar o coitado do rapaz.

Acho que eu devia ter sacado o trezoitão ali mesmo e feito o palhaço me levar até a porta de casa, mas me segurei. Enfiei os dentes no lábio de baixo até tirar sangue, mas me segurei.

Era a grana, claro. O “agradinho”. Porra, o motorista tava comprado!

E ainda me chamava de sem educação...

Foi aí, vendo o cretino se arrastar latão adentro enquanto eu era deixado pra esperar mais uma hora fodida, que batizei meu “colega” de ponto de ônibus, definitivamente, de “Parasita”. Foi aí, também, que resolvi fazer uma reforma particular no Código Penal. No dia seguinte eu até tentei pegar o latão num ponto anterior ao de costume, mas o motorista provavelmente tava com muita pressa pra largar a mãe na zona, então nem parou.

Primeiro, pra fazer o Parasita pagar a dele, eu precisava saber direitinho quem, e o quê, era aquele infeliz. Afinal, não adianta pisar no pé direito se a unha encravada fica no esquerdo, certo? Mas esta é uma das vantagens de se trabalhar na segurança – a gente sempre tem um colega que tá por dentro dos lances. No caso, foi só perguntar por aí quem era o “crespinho cegueta da madrugada” e logo me deram o serviço.

Nome, Fortunato. Trabalhava na biblioteca da escola de Direito, pondo os livros de volta na estante depois que a molecada que fica lá à noite fazendo cola queima o chão. Morava numa bosta duma casa de bloco vagabundo, não tinha dinheiro nem pra mandar passar reboco e pintar, enfiada num loteamento clandestino, pendurado num dos morros de Rio Acima. O palhaço vivia reclamando da falta de água. Imbecil. Compra terreno clandestino e vai querer o quê? Agüinha limpinha todo dia? Asfalto na rua?

Na cara que era trouxa pra cacete. De repente, até dava o cu.

Como o Parasita e o motorista (que tinha mãe na zona) tavam mancomunados mesmo, não adiantava mais nem tentar pegar o latão das quinze pras três. Então, comecei a passar uma horinha extra dentro da faculdade. Melhor que passar frio na merda do ponto.

No caso, eu era segurança dentro do Instituto de Psicologia. Maioria das pessoas pensa que faculdade de psicologia é um monte de livros e carteiras e só, mas aí a moçada se engana: tem laboratório lá, uns ratinhos em gaiolas e labirintos, computadores, fitas de vídeo, CDs, umas máquinas gozadas e até um armário cheio de remédios. Essa minha hora extra, então, eu passava curtindo um pagode numa salinha especial, sem vidro e à prova de som, dentro do laboratório. Foi nessas idas e vindas que conheci o russo.

O crachá dizia que o nome da figura era “Dr. Lichemberg”, mas sempre chamei o cara de Ivan. Chegadíssimo numa pinga, o Ivan. Já um senhor meio que de idade, mas enxugava que era uma beleza. Nunca me explicou direito o que um professor russo como ele tava fazendo num buraco como a Universidade de Açaraí, mas até aí, também, o que eu tinha a ver com isso?

O cara andava com uma daquelas garrafinhas de metal que a gente vê nos filmes, cheia de uma merda que devia ser de pôr no tanque no carro, e entornava. Ah, como entornava! Morava num alojamento especial para professores visitantes (pertinho da faculdade; eu sabia onde era, logo atrás do laboratório. Na segurança, a gente chamava o lugar de “colônia penal”). Na madrugada, saía de fininho e ia no laboratório pra entornar o caneco escondido.

Que nem eu, que ia ouvir música escondido. Uma noite, peguei ele no flagra – ou ele me pegou, né. Depende de como se olha.

Depois do susto, o russo me ofereceu um trago e começamos a conversar. Ele disse que meu português era “pitoresco”, e devolvi o elogio. O cara tinha uma pronúncia gozada pra cacete.

Mas, peraí, tô pondo a bosta do carro na frente dos bois. Eu ia dizendo que tinha levantado o endereço do tal Fortunato Parasita. Então, num fim de semana, fui conferir a vizinhança do puto.

Era bem o que tinham me dito, uma casa de bloco, peladinha, peladinha, dava pra ver direitinho o concreto seco, escorrido. Puta serviço de merda. Na padaria da esquina, levantei mais um pouco da ficha do palerma. Era juntado com uma pretona que já tinha sido gostosa pra caralho, mas andava meio acabada, me disseram. A mulher tinha uma filha, mas que não era dele. A menina tinha uns catorze anos, “e uns peitinhos que são um tesão”, foi o que o balconista me disse. “E anda por aí de blusa de alcinha, sem sutiã, neste frio”.

– Eu pagava cinqüenta paus por uma chupadinha – falou o cara, um velho de barba rala e um olho branco, vazado, que era bem maior que outro, bom. – Só uma chupadinha, e nem precisava ser nos dois. Cinqüenta!

Eu tinha um amigo, investigador de polícia, com um fraco por garotinhas. Conheci o sujeito ainda na Academia. Investigador competentíssimo – mas tinha essa queda por menores. Era o pessoal da delegacia dele que vendia proteção pra puteiro na cidade, e diziam que o Gomes (era esse o nome do calhorda) cobrava a dele em espécie.

Mas só com garotinhas.

O pessoal respeitava essa tara dele. Afinal, se a mina tá no bordel ninguém vai pedir RG, certo? Em noite de inauguração, só dava o Gomes. E, se a enteada do Parasita era mesmo um tesão de catorze anos...

O chato é que era enteada, não filha de sangue. O mané podia bem tá cagando e andando pra peitudinha. E, mesmo se alguma coisa acontecesse, em que isso ia fazer o cara ter uma atitude melhor? Ser mais educado?

Não se tratava de vingança gratuita. Era pro paspalho aprender a respeitar os outros, cacete. Mas a idéia de juntar a menina e o Gomes não me saía da cabeça. Tinha a saída óbvia, que o Gomes mesmo vivia se gabando de já ter usado umas duas ou três vezes, de passar a vara numa mina e depois levar o pai ou padrasto até o distrito, para dar um jeito no cara e fazer o trouxa “confessar o abuso”.

Sabia que era só mostrar a gostosinha pro cana que ele ia querer brincar de novo, e aí o Parasita tava fodido. Com sorte, iam trancar o filho da puta numa cela cheia de irmãos mais velhos de menininhas estupradas. Mas isso não resolvia tudo. A coisa tinha que vir de mim. Pro desgraçado aprender.

Pra tu ver como são as coisas na vida: no fim, eu pensando essa merda toda o tempo todo, um dia de sábado tô eu no boteco, tomando umas caninhas com vermute (e umas cervas pra rebater) toca o telefone comunitário na porta do bar, um moleque que tava no pebolim atende e me chama.

E não é que era o Gomes?

– Falaí, malandro. – Ele diz.

– Que é que manda, doutor?

– Seguinte, colega: passa lá na casa de noite.

– Pô, chefia, até que ia ser legal, mas tô estupidamente liso...

– Por conta da casa, mané, por conta da casa. Quero levar um lero contigo. Business, morou?

– E como explico essa treta aí pro leão de chácara?

O Gomes riu.

– Vai tá tudo acertado. Aparece lá depois das dez. Feito?

– Feito.

“Casa”, claro, é o puteiro em que Gomes e a rapaziada do distrito têm, vamos dizer, sociedade. Fica numa subidinha meio perto a pista pra São Paulo, mas mais pro lado da cidade que o campus da UPA. O nome é “Atlantis Night Club”, tem uma porta metálica já descascando a tinta dourada e, nos fundos, fica um prediozinho de quatro andares, que de acordo com a placa por cima do balcão é um pensionato para moças.

Uma coisa posso dizer sobre o “Atlantis”: a luz é tão fraca e a bebida, tão forte, que quase não dá pra notar a celulite na bunda das minas. Também posso dizer outra: é caro pra cacete. Uma dose de uísque vagabundo, batizado com álcool de churrasqueira, custa mais que uma garrafa de vermute honesto. E a cerveja está sempre choca.

Não é, pra encurtar o papo, um buraco aonde eu vá me meter com muita freqüência.

Cheguei às dez e cinco. O leão de chácara me deu uma geral e me levou até uma salinha que ficava não no “night club”, mas no pensionato. O papo do Gomes devia ser sério, mesmo.

Entrei na sala. O Gomes tava lá, ele e mais dois caras, todo mundo vestido de preto e de óculos escuros. Não sei porquê, mas fiquei achando que eles iam desandar a falar com aquela voz de taquara rachada das “testemunhas secretas” que a gente vê no jornal da televisão.

Mas só o Gomes falou, e com a voz dele, mesmo.

Ele queria saber o que tava rolando na Universidade. Eu disse que nada, pô, nada que eu soubesse. Aí ele disse que tinha uns figurões que costumavam vir de Sampa toda semana pra passar uma “noite exclusiva” na “ala privê” do “Atlantis” (e eu nem sabia que os putos tinham isso!). Era grana certa, grana boa. Às vezes vinham também uns convidados – japoneses, coreanos – e aí a grana era até melhor.

Só que, de uns tempos pra cá, os caras tinham parado de vir. De repente. E a grana tava começando a fazer falta.

E que merda a Universidade tem a ver com isso?, perguntei. A treta, o Gomes explicou, é que uns colegas da Polícia Rodoviária e do pedágio, pra quem ele tinha feito umas perguntas, disseram que os carros dos ricaços continuavam saindo de Sampa, e vindo na direção da cidade, mas que tavam entrando no campus. E não era só uma vez por semana, não: todo santo dia, e passavam pelo posto da rodoviária sempre por volta de uma e meia, duas da manhã.

Será que eu sabia que bosta era essa? Não, eu não sabia. Será que dava pra eu descobrir?

Falei que dava – afinal, se os tiras ficassem me devendo favor...

Então na segunda-feira, em vez de ficar das duas às três e quarenta na salinha, tomando pinga e curtindo som, resolvi dar uma volta pelo campus e ver o que eu descobria. Se os bacanas passavam pela PR às duas, deviam estar entrando na UPA às duas e quinze, no máximo.

Quanto mais eu pensava no assunto, mais ficava desconfiado do tal Dr. Lichemberg. Porque, se tinha um puteiro armado dentro do campus, o único lugar onde daria pra fazer isso era na colônia penal. Pra começo de conversa, é só lá que tem cama, cacete. E onde as chaves não ficam com o pessoal da segurança. Além disso, muito esquisito o mané aparecer sempre de madrugada pra me oferecer um trago e me colocar na salinha à prova de som, onde não dá pra escutar nada que vem de fora...

Pelo jeito, pegando meu lugar no ônibus o Parasita tinha atrapalhado muito mais gente.

Um filho da puta, mesmo.

Então, na noite de segunda-feira, eu fingi tomar um trago da garrafinha do russo. Fingi que tava bebum na hora de entrar na salinha, até fiz tchauzinho antes de fechar a porta e ligar o CD de pagode. Mas fiquei na minha. Cronometrando.

Às duas e vinte, desliguei o som e saí. O caralho é que tudo parecia tão quieto quanto antes. Ou não? Dei uma olhada em volta, e saquei logo: o armário de remédios. O cadeado tava aberto – não arrombado, aberto. Como se alguém tivesse tirado alguma coisa dali, usando a chave, e fosse devolver depois.

Sem nada melhor pra fazer, saí do laboratório pela porta por onde tinha me acostumado a ver o russo entrar. Tava trancada, a filha da puta, mas eu tinha uma chave-mestra.

Eu sabia que aquilo ia dar num jardinzinho, e do outro lado ficava a colônia penal. Era um prédio mais comprido do que alto – uns três andares. Durante a tarde eu tinha feito umas perguntas aqui e ali, e descobri que o lugar estava praticamente desocupado. Só o russo e uns colegas (também russos) estavam alojados lá. Às vezes um palestrante vinha de longe e passava a noite, ou usava o chuveiro, mas os russos (uma meia dúzia) eram os únicos hóspedes permanentes.

Esquema do caralho, pensei. Meia-dúzia de cafetões russos, umas festinhas embaladas com droga (afinal, pra que mais eles teriam mexido no armário?) e coisa e tal. Esquemão.

No jardim, três carrões parados. Pretos, vidros opacos, detalhes prateados. Mas sem motoristas: os figurões não queriam testemunhas mesmo.

Cheguei na portaria da colônia e entrei. O porteiro fez que ia me barrar mas viu o uniforme e se afastou. Parecia indeciso.

Foi aí que escutei a porra do grito.

Mano, já vi e ouvi muita coisa nesta merda de vida. Já vi pivete, amarrado feito novilho em rodeio, levar tiro na nuca em terreno baldio; já escutei mulher chorando e trepando ao mesmo tempo, porque o cara tinha ameaçado meter um teco de trezoitão na buceta dela, se não baixasse a porra da calcinha. Já vi sogra misturar vidro moído no açúcar do genro. Até nego estrebuchando, morrendo de guaraná com raticida, eu já vi.

E ouvi.

Mas grito que nem aquele? Mano, daquele jeito, nunca.

Acho que era pra isso que o russo me dava pinga e sempre esperava eu entrar na salinha isolada, com os vídeos e CDs. O grito era alto pra cacete. Daria pra ter escutado do laboratório, eu tinha certeza. O lugar era meio afastado do resto do campus; daria pra escutar o grito do laboratório e, claro, dos outros apartamentos da colônia. Mas de nenhum outro lugar. Não numa hora daquelas. No ponto de ônibus, por exemplo, que ficava do outro lado do prédio da Psicologia – não daria pra escutar dali.

Olhei pro merdinha do guarda da portaria. Ele balançou a cabeça, tentou sorrir. Olhei mais de perto.

O cara tava viajandão.

Puxei o berro da cinta e subi a escada até o primeiro andar. A luz do prédio deu uma piscada, escutei a merda do grito, de novo. Desta vez, tive que morder a língua pra não gritar de volta.

Nada no corredor. Conferi as portas: trancadas, nenhum som.

Bom, mais dois andares pra checar.

Bosta.

A luz piscou de novo, e desta vez tampei os ouvidos. Serviu pra merda nenhuma: outro, grito, cara. Outro.

Mas agora eu já estava chegando no segundo andar. O barulho vinha dali, eu tinha certeza. Na última curva da escada, encostei o corpo na parede e dei uma olhada. O que vi, sinceramente, me deixou decepcionado.

Ali, no meio do corredor – bem no meio – tinha três camas. Cada cama tinha um homem pelado em cima. Cada homem tinha uns fios presos no pau, no cu e na cabeça. Esses fios, todos, sumiam dentro da porta de um dos quartos, que tava aberta. Entrando e saindo do quarto, os seis russos, metidos em jalecos brancos. Um deles, claro, era meu amigo Ivan, o Dr. Lichemberg.

Entrei no corredor, berro na mão, chamei:

– Ô, Ivan! – Todo mundo parou de repente. – Ô, Ivan! A pinga tava aguada, porra!

Um russo sussurrou alguma coisa, provavelmente na língua lá dele, pra um dos outros. Os três caras nas camas continuavam travadões.

– Alexei está dizendo que devíamos ter oferecido o preparado pra você também – disse Ivan, tentando fingir um sorriso por baixo da barbona. – Seu colega lá de baixo não perde a dose por nada. Mas achei que ia ser muito arriscado.

– Alguém pode me explicar que porra tá rolando aqui? Eu achando que ia cair direto num puteiro, e acho uma bosta de hospital!

– Bem... estamos testando um sistema de gratificação catártica que...

– Fala minha língua, cacete!

Um dos três caras nas macas soltou um daqueles gritos. Fechei os olhos, como se isso fosse diminuir o efeito da merda, e logo me arrependi, achando que os russos iam cair matando em cima de mim. Mas não: eles continuaram exatamente onde estavam, com as mãos para o alto e tudo.

O cara que tinha gritado tava coberto de porra até o umbigo. Parecia banana split com chantili.

– Então? Que bosta é esta?

Ivan e mais uns dois caras finalmente conseguiram explicar o esquema: eles tinham trazido da Rússia uma máquina que, junto com uns remédios especiais, podia fazer um cara sentir que tava pondo em prática tudo que sempre quis e nunca pôde – dar o cu pro faxineiro, enrabar a própria esposa, essas coisas. Os caras nas macas eram uns ricaços que tinham concordado em “ajudar nas pesquisas”.

E, de quebra, parado de ir ao “Atlantis Night Club”, pensei.

Comecei a ter idéias.

– Cês podem botar memórias na cabeça das pessoas? Fazer o cara realmente acreditar que levou uma boquete da própria filha, por exemplo?

Ivan me levou pra ver a tal máquina. Era um computador com uma massa de fios e plástico grudada do lado. Umas ondas coloridas passavam pela tela. Ele disse que a tal “gratificação catártica” era “espontânea e inconsciente” – o que quer dizer que a coisa vinha toda da cabeça do cretino deitado na maca, e que ele normalmente não lembrava de nada, além do fato de se sentir melhor, “mais leve”, ao final do tratamento – mas que eles tavam trabalhando pra “criar alternativas”.

– Eu quero fazer um filho da puta pensar que passou a noite num lugar onde não foi, fazendo coisas que não fez. Dá?

A pergunta deixou Ivan meio sem jeito, e por isso falei um pouco sobre o Gomes e como o pessoal do “Atlantis” tava puto. Isso resolveu o problema:

– Claro – disse o russo. Vi as gotinhas de suor na testa dele.

Saí de lá rindo pra cacete.

Uns dias depois, liguei pro Gomes, com a desculpa de dizer que ainda não tinha sacado nada sobre o que andava rolando na faculdade, e aproveitei pra falar um pouco sobre a filha do Parasita:

– Tesudinha.

– Jura?

– Uns peitinhos...

– E você diz o quê? Não tem pai?

– É enteada de um mané que deve comer a mãe, toda noite, pensando na filha. Se é que ainda não se aproveitou da menina.

– Estuda no noturno, cê disse?

– Sai da escola às dez e meia – eu tinha feito um pouco mais de pesquisa. – E o pai só costuma chegar em casa depois das três da manhã. Vai nessa, cara! Só me diz quando, que aí eu dou um jeito do mané ficar sem álibi...

– Porra, mas vai ser hoje à noite mesmo!

– Hoje?

– Pode apostar!

Naquela mesma noite, às vinte pras dez, um agente da segurança da Universidade foi procurar o “senhor Fortunato” na biblioteca. “O senhor está sendo chamado no Instituto de Psicologia”, disse o segurança. O Parasita deu de ombros e seguiu o cara – ou melhor, me seguiu. E por que não? Muito educadamente, pedi que o “sr. Fortunato” me acompanhasse até o laboratório da Psicologia, onde havia algo “de seu interesse”. Uma vez lá, meti um coronhada na cabeça do lazarento, amarrei e amordacei o filho de uma piranha com fita adesiva (daquela marrom, forte, que usam no correio pra lacrar sedex) e joguei o monte de estrume numa das salinhas isoladas. Sem luz e sem som.

Depois fui com o Gomes esperar a peitudinha na saída da escola. Não vi o que ele fez, mas vi onde jogou o corpo. Era preciso.

Já era madrugada quando voltei à faculdade. Peguei uma seringa do mesmo bagulho que os russos davam pro porteiro da colônia e injetei no Parasita, que àquela altura já tinha acordado e estava se debatendo, como o verme que era, dentro do casulo. Mas foi só aplicar o pico e o morfético arriou na hora.

Arrastei o babaca até a colônia penal, onde os russos, com seus fios e computadores e drogas especiais, socaram duas memórias naquela cabeça de cu: a primeira, que ele tinha trabalhado normalmente a noite toda, e que depois eu e ele tínhamos tomado o ônibus juntos, às duas e quarenta e cinco; a segunda, o lugar exato onde estava o corpo da enteada.

Faltava ainda uma hora pro sol nascer quando um dos russos botou o porco, ainda apagado, num táxi, e o despachou pra casa.

Dois dias depois, fui chamado para depor na delegacia. O Parasita disse à polícia que tinha ficado trabalhando até seu horário normal, e que às duas e quarenta e cinco tinha tomado o ônibus junto comigo.

Mas os colegas da biblioteca viram ele sair pouco antes das dez; e quanto ao ônibus...

– Mas, Fortunato, você sabe que o ônibus das duas e meia passa no nosso ponto com um lugar só – falei, sorrindo meu sorriso mais angelical, durante a acareação. – A gente nunca poderia ter subido juntos nele. Aliás, por causa disso, eu nem pego mais o ônibus nesse horário!

O motorista também foi espremido até dizer que, naquela noite, Fortunato não tinha saído no ônibus.

E, claro, depois de cinco minutos do pau-de-arara o Parasita confessou que sabia onde estava o corpo da menina. O cuzão disse não saber como sabia. Mas sabia.

Ele morreu na primeira noite de cadeia, enquanto aguardava julgamento. Tinha mais quinze caras na cela, todos com opiniões muito fortes acerca do estupro de menores. E uma lâmina de barbear enferrujada.

Agora, você se pergunta por que eu tô escrevendo esta caralhada toda. É por um bom motivo: tô aqui, sentado na cama, com meus brinquedinhos todos bem à mão. Tô esperando. Esperando eles virem atrás de mim.

Quem? O Gomes, por exemplo. Ele tem duas razões pra isso – primeira, porque sou testemunha do que ele fez com a peitudinha. Mais cúmplice que testemunha, é verdade, mas imagino que a coisa esteja deixando ele meio inquieto. Senti um clima, se é que você me entende. Dá pra sacar.

A segunda, e mais importante, é que ainda não dei o serviço sobre os russos na colônia penal, e os ricaços continuam sem aparecer no “Atlantis Night Club”. Gomes deve tá achando que tô levando grana pra encobrir algum outro esquema, algum concorrente. E isso é o tipo de coisa que deixa ele puto. Puto pra valer.

E, falando nos russos, acho que os tais ricaços também botaram uns tipos na minha cola. Será que o Ivan me dedou pros caras? Por que não? Pensando bem, eu não pedi segredo.

Cagada minha.

Só que é claro que não vou entregar o Ivan e os outros. Dedos-duros ou não, os caras me ajudaram. Fizemos um acordo, eles cumpriram. Sou civilizado. Portando, não vou cagar neles. Ao menos, não de propósito.

É importante agir civilizadamente.

 

Carlos Orsi Martinho é jornalista e, provavelmente, o maior e melhor autor de Língua Portuguesa no género do Terror. Nasceu em Jundiaí, no interior do estado de São Paulo, a 5 de Janeiro de 1971. Os seus primeiros contos foram publicados entre 1986 e 1989, no Jornal de Jundiaí. O seu primeiro trabalho a ser lançado profissionalmente apareceu no nº24 da revista brasileira Isac Asimov Magazine, em 1992. A sua primeira antologia de contos, Medo, Mistério, Morte, foi publicado em 1996, pela Editora Didática Paulista, na colecção Novos Caminhos. A segunda antologia, O Mal de Um Homem, apareceu em 2000, pela Editora Ano-Luz, e inclui "A Engrenagem Vulgar", eleito melhor de 1999 pelos leitores da revista Quark. Muitos outros contos de Martinho têm também aparecido em diversas antologias e fanzines, tanto nacionais como estrangeiros.

Martinho recebeu um prémio Tapìraì (pelo seu conto O Planeta Vermelho, a sua primeira incursão em territórios Lovecraftianos) e um prémio Nova (pelo seu conto A Fábrica), um dos prémios mais prestigiantes da Ficção Científica Brasileira.

Carlos Orsi Martinho tem sido um dos responsáveis pela apresentação do universo de H. P. Lovecraft à Ficção Fantástica Brasileira. Esta sua veia Lovecraftiana, que desde sempre lhe tem servido de inspiração nunca o impeliu a fazer meras cópias do trabalho original do Mestre HPL. Ao longo da sua carreira, Martinho sempre manteve o seu estilo e originalidade próprios. A sua veia Lovecraftiana continua lá - correndo adormecida mas potente, mesmo por baixo da superfície dos seus mais recentes trabalho - mas o resto é puro Martinho; puro e inimitável Martinho, a caminho de se tornar um dos verdadeiros mestres.

O Turno da Noite deseja ao recém-casado casal Martinho um feliz matrimónio. Esperemos que tenham gostado da sua lua-de-mel em Portugal, e que, decididamente, não tenham aproveitado para ver as vistas e queiram regressar!

Carlos Orsi Martinho pode ser contactado pelo seguinte e-mail: carlosom71@yahoo.com

Civilizadamente: Copyright © 2001 Carlos Orsi Martinho

Adaptação para HTML por Ricardo Madeira

 

Última actualização: 17-09-2001

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