(Tradução de Ricardo Madeira)
Nyarlathotep... o caos rastejante...
Eu sou o último... Eu contarei ao vazio que ouve...
Não me recordo distintamente quando
começou, mas foi meses atrás. A tensão geral era horrível. A uma época de
revolta política e social juntara-se uma estranha e crescente apreensão de
medonho perigo físico; um perigo difundido e abrangente, um perigo tal como
apenas podia ser imaginado nos mais terríveis fantasmas da noite. Recordo-me
que as pessoas erravam dum lado para o outro com faces pálidas e preocupadas, e
sussurravam avisos e profecias que ninguém ousava repetir ou admitir a si
próprio que ouvira. Uma sensação de culpa monstruosa pairava sobre a terra, e
para fora dos abismos entre as estrelas sopravam correntes gélidas que faziam
os homens tremer em lugares escuros e solitários. Existia uma alteração
demoníaca na sucessão das estações - o calor de Outono persistia de forma
alarmante, e todos sentiam que o mundo e talvez o universo tinham passado do
controle de deuses ou forças conhecidos para aquele de deuses ou forças que
eram desconhecidos.
E foi então que Nyarlathotep saiu do
Egipto. Quem ele era, ninguém conseguia perceber, mas ele era do velho sangue
nativo e parecia um Faraó. Os felás ajoelharam-se quando o viram,
contudo não conseguiam dizer porquê. Ele disse que havia superado a negridão
de vinte e sete séculos, e que tinha ouvido mensagens de lugares fora deste
planeta. Para as terras da civilização veio Nyarlathotep, moreno, esbelto, e
sinistro, sempre adquirindo estranhos instrumentos de vidro e metal e
combinando-os em instrumentos ainda mais estranhos. Ele falou muito das
ciências - da eletricidade e da psicologia - e fez demonstrações de poder que
faziam os seus espectadores afastarem-se mudos, e que contudo faziam crescer a
sua fama até magnitudes descomedidas. As pessoas aconselhavam-se umas às outras a
ir ver Nyarlathotep, e estremeciam. E aonde Nyarlathotep ia, o sossego desaparecia, pois as primeiras horas da manhã eram
rasgadas pelos gritos
de pesadelo. Nunca antes tinham os gritos de pesadelo sido um tal problema
público; agora os homens sábios quase desejavam que pudessem proibir o sono
durante as primeiras horas da manhã, de maneira a que os guinchos de cidades pudessem perturbar menos horrivelmente a compassiva lua pálida, enquanto
brilhava em águas verdes deslizando por baixo de pontes, e velhos campanários
caindo em pedaços contra um céu doentio.
Lembro-me de quando Nyarlathotep
chegou à minha cidade - a grande, a velha, a terrível cidade de crimes
inumeráveis. O meu amigo havia-me falado dele, e da fascinação impulsiva e
encantamento das suas revelações, e a ânsia de explorar os seus derradeiros
mistérios queimou dentro de mim. O meu amigo disse que eram horríveis
e impressionantes para além das minhas mais febris imaginações; e o que
foi projectado numa tela no quarto escurecido profetizou coisas que ninguém
excepto Nyarlathotep ousava profetizar, e no crepitar das suas faíscas foi
levado dos homens aquilo que nunca tinha sido levado antes e que não obstante se
revelava apenas nos olhos. E eu ouvi sugerido no estrangeiro que aqueles que
conheciam Nyarlathotep contemplavam visões que outros não viam.
Foi no Outono quente que atravessei a
noite com as multidões inquietas para ver Nyarlathotep; ao longo da noite abafada
e subindo os intermináveis degraus até ao quarto sufocante. E, sombreadas numa
tela, vi formas encapuçadas entre ruínas, e malévolas faces amarelas
espreitando por detrás de monumentos caídos. E eu vi o mundo batalhando contra
a negridão; contra as ondas de destruição vindas do espaço último;
rodopiando, agitando-se, lutando em redor do sol que escurecia,
esfriava. Então as faíscas dançaram assombrosamente em volta das
cabeças dos espectadores, e cabelos eriçaram-se enquanto sombras mais
grotescas do que posso contar apareceram e se agacharam sobre as cabeças. E
quando eu, que era mais frio e científico que os restantes, resmunguei um
protesto trémulo sobre "embuste" e "electricidade
estática," Nyarlathotep mandou-nos a todos para fora, pelos degraus
atordoados até às ruas de meia-noite, húmidas, quentes, desertas. Gritei em
voz alta que não tinha medo; que eu nunca poderia ter medo; e outros gritaram
comigo para encontrar conforto. Jurámos uns aos outros que a cidade estava exactamente na mesma, e ainda viva; e quando as luzes
eléctricas começaram a
enfraquecer amaldiçoamos a companhia inúmeras vezes, e rimos das caretas
embaraçosas que fizemos.
Penso que sentimos algo descer da
lua esverdeada, pois quando começamos a depender da sua luz demos por nós
vagueando no
meio de curiosas formações involuntárias em marcha e parecíamos saber os
nossos destinos embora não ousássemos pensar neles. Numa ocasião olhámos
para o pavimento e descobrimos as pedras soltas e deslocadas pela relva, e mal
uma linha de metal enferrujado a mostrar por onde os eléctricos se haviam
movido. E outra vez vimos nós um eléctrico, solitário, sem janelas,
dilapidado, e quase caído de lado. Quando fitámos em redor o horizonte, não
conseguimos encontrar a terceira torre à beira-rio, e notámos que a silhueta
da segunda torre estava dentada no topo. Então dividimo-nos em colunas
estreitas, cada uma das quais parecendo atraída numa direcção diferente.
Uma desapareceu por uma apertada viela para a esquerda, deixando só o eco de um
chocante gemido. Outra marchou por uma entrada de metro obstruída por ervas
daninhas abaixo, uivando com gargalhadas que eram loucas. A minha própria
coluna foi sugada rumo a terreno aberto, e presentemente eu sentia
um frio que não era do Outono quente; pois enquanto nós caminhávamos
silenciosamente pelo pântano escuro, vimos em nosso redor a infernal
cintilação lunar de neves malignas. Inexplicáveis neves sem rasto eram
varridas para longe numa só direcção, onde se estendia um golfo
tornado ainda mais negro pelas suas paredes reluzentes. A coluna parecia mesmo
muito magra à medida que caminhava ensonada e pesarosa para dentro do
golfo. Eu fiquei para trás, pois a fenda negra na neve verde-iluminada era assustadora, e pensei ter ouvido as
reverberações de uma inquietante lamúria quando os meus companheiros
desapareceram; mas o meu poder para ficar era débil. Como se chamado por
aqueles que tinham ido antes, eu como que flutuei por entre as titânicas massas
de neve, tremendo e amedrontado, para dentro do vazio vórtice do
inimaginável.
Formidavelmente racional, ou pasmadamente delirante, só os deuses que eram podem dizer. Uma
adoentada e sensível sombra contorcendo-se em mãos que não são mãos, e
arrastada rodopiando cegamente por horríveis meias-noites de criação pútrida,
cadáveres de mundos mortos com chagas que foram cidades, ventos sepulcrais que
roçam estrelas pálidas e as fazem tremeluzir ao de leve. Para
além dos mundos fantasmas vagos de coisas monstruosas; colunas
semi-vislumbradas de templos não-santificados que jazem sobre pedras sem nome
debaixo do espaço e se erguem alcançando estonteantes vácuos sobre as esferas
de luz e escuridão. E por este revoltante cemitério do universo o abafado e
enlouquecedor bater de tambores, e fina e monótona lamúria de flautas
blasfemas vinda de inconcebíveis e não-iluminadas câmaras além do Tempo; o detestável
martelar e assobiar ao som dos quais dançam lenta, desajeitada, e
absurdamente os gigantescos e tenebrosos deuses supremos - as gárgulas cegas,
mudas, e imbecis cuja alma é Nyarlathotep...

Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) é
um dos escritores americanos mais influentes e bem conhecidos no género do
Horror. Este conto foi escrito em finais de 1920, e é bem demonstrativo do
horror cósmico e niilista que Lovecraft sempre praticou. Afinal, o que pode ser
mais horrível do que saber que os deuses supremos são criaturas cegas e mudas
que não possuem mente? O conjunto de mitos criado por Lovecraft, longe de ser
bem organizado, estava em constante evolução, sendo que o conceito de deus idiota
que gira no centro do universo, e que é acima descrito, acabaria por se tornar
em Azathoth, o adormecido Demónio Sultão em cujos sonhos vive o universo.
Nyarlathotep tornar-se-ia, por sua vez, o mensageiro dos Outros Deuses,
continuando a aparecer sob a forma de um homem alto e negro como o mais puro
carvão.
Para mais informações sobre H. P. Lovecraft, visitem o
seguinte site: http://www.hplovecraft.com

Tradução:
Copyright © 2000 Ricardo
Madeira