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Se As Estrelas Estiverem Certas...
I.
(por Carlos Orsi Martinho) A única fonte de luz no quarto era a tela do computador. Osires Mesquita, sem óculos, mantinha-se curvado sobre a mesa, o nariz quase encostado na superfície brilhante. Os dedos de sua mão esquerda -- a única que lhe restara -- tremiam sobre o mouse. A figura na tela era um círculo dividido em doze secções, cortado por linhas e ângulos, e com um Sol estilizado ao centro. O conjunto poderia ser facilmente tomado por um mapa astral, mas uma observação mais cuidadosa revelaria ali a presença de astros alheios ao cartel dos astrólogos: o signo de Touro, por exemplo, estava representado por uma estrela solitária, Aldebarã; Plutão era designado por Yuggoth e outros três planetas, provavelmente mundos externos ao sistema solar -- Shaggai, Carcosa e Goroth -- , apareciam interagindo com o arco zodiacal. Uma estrela desconhecida, Xoth, também brilhava ali. O programa havia sido criado há alguns meses segundo especificações bastante estritas do próprio Osires, mais ou menos na mesma época em que o coto da mão direita começara a coçar. O que não podia ser um bom sinal. II.
(por Ricardo Christe) Naquele momento, porém, Osires não se podia preocupar com isso. Largou o mouse para esfregar os olhos. A excitação do momento ajudava-o a driblar a falta de sono, mas a vista cansava. Por alguma razão, sempre que fixava a estrela mais alta do diagrama, os olhos ardiam-lhe um pouco mais. Desviou a atenção da tela um instante e apanhou uma disquete ZIP na gaveta. Precisava registar o que estava por vir. Com a disquete em posição, Osires moveu o ponteiro do mouse sobre um menu baptizado de "Ferramentas". Escolheu a opção "Projecção por Intervalo". Entrou com um intervalo de tempo -- a data final era dali a exactamente seis meses -- e clicou no botão "ANIMAR".
Saiu para repor café na caneca. O computador não era dos melhores, e levaria alguns minutos para tomar todas as variáveis em consideração. O Ponto de Referência do Observador, por exemplo, adoptava as coordenadas de uma localidade a pelo menos cinco mil quilómetros de distância... mas sempre a um passo dos pensamentos de Osires. Tikal. A Grande Cidade Maia. III.
(por Mauro Amoasei dos Reis) O calor da caneca de café não ajudava em nada a aliviar o frio que descia sobre ele enquanto seus pensamentos o levavam novamente para aquela noite, em Tikal. Osires se lembrava muito bem da maior parte dos acontecimentos daquela viagem de férias à Guatemala. A terra estranha, os costumes diferentes, a língua e a aparência distinta do povo. Mas se lembrava principalmente das ruínas, e do desafio dos companheiros de viagem: passar a noite lá, sozinho. Na altura, o facto de ele ter aceite pareceu-lhe a confirmação de sua coragem. Hoje em dia, ele o considerava a confirmação de sua idiotice. Daquilo que acontecera depois, Osires possuía apenas vagas lembranças. Acordou no dia seguinte num hospital, para onde alguém o tinha levado, ensanguentado e em choque. E a sua mão direita... O café quente salpicando a sua mão trémula arrancou-o às memórias. Depositou a caneca na bacia da cozinha e limpou o café derramado no chão, esperando até que os tremores parassem o suficiente para ele conseguir segurar a caneca novamente. O melhor era não pensar mais no passado, por enquanto. O futuro preocupava-o muito mais.s. IV.
(por Ana Cristina Luz) Mas como era possível concentrar-se no futuro quando a coceira o incomodava ao ponto de se tornar insuportável? E porque tinha ele aquela estranha sensação de frio na espinha sempre que os tremores o atacavam? Uma imagem muito vaga assaltava-o durante os ataques. Mas apesar da frequência com que isso acontecia, nunca conseguia identificar a sua natureza, pois os contornos eram sempre muito vagos. E mesmo nas ocasiões em que a imagem se mantinha por mais alguns segundos do que o habitual, parecendo começar a tomar uma forma mais definida, desaparecia antes de se denunciar. Como se de um sinal se tratasse, alertando-o para um perigo eminente mas ao mesmo tempo avisando-o para se manter afastado. E porque tinha ele um pressentimento tão estranho em relação à origem daquela imagem? Osires levou a mão ao coto, tentando não esfregar com muita força. Habituara-se a massajá-lo com a palma da mão para evitar irritar ainda mais uma área já muito sensibilizada. Passada a crise, pegou na caneca de café ainda quente e bebeu um demorado gole. O calor da bebida deu-lhe algum alento. Sacudiu os ombros como se pretendesse com aquele gesto afastar todo o desconforto que sentira momentos antes e sentiu-se ligeiramente melhor. Até o coto deixou de o incomodar. Eram horas de voltar ao trabalho. O computador já deveria ter analisado todas as variáveis e provavelmente apresentava já resultados. Decidiu voltar para o quarto.
V.
Este fragmento ainda está livre!
VI - ...
Estes fragmentos ainda estão livres!
Escreva aos autores dos fragmentos, e envie-lhes a sua opinião: I. Carlos Orsi Martinho - carlosom71@yahoo.com II. Ricardo Christe - christe@sti.com.br IV. Ana Cristina Luz - avasco@secil.pt V. Quem será a... Próxima Vítima?
"Se As Estrelas Estiverem Certas" Copyright © 2000, 2001 Carlos Orsi Martinho, Ricardo Christe, Mauro Reis, Ana Cristina Luz, ... |
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Última actualização: 17-09-2001
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